Sabrina Noivas 135 - Wed By a Will
 
Eu rezei para que voc viesse! A partir do instante em que o garotinho da casa vizinha sussurrou estas palavras no ouvido de Corine, ela soube que estava fisgada. Fora para Miracle Harbor a fim de tomar posse de um rancho que havia herdado, um lar que seria seu se ela se casasse... Era uma pena que o charmoso caubi que criava o sobrinho quisesse apenas as terras, e no Corine. O olhar de Matt Donahue, entretanto, dizia outra coisa... Parecia revelar que ele ansiava por um grande amor tanto quanto ela... e prometer que o sonho de Corine poderia se tornar realidade. Mas ser que ela no estava vendo coisas?

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2002
Publicao original: 2001
Gnero: Romance contemporneo
Estado da Obra: Corrigida

   
Srie The Wedding Legacy
Ordem	Ttulo	Ebook	Data
1	Husband by Inheritance
Sabrina Noivas 131 - 
Marido Por Herana	Jul-20012	The Heiress Takes a Husband
	Aug-20013	Wed by a Will
Sab.Noivas 135 - 
Meu Sonho  Voc!	Sep-2001

     
PRLOGO

Com uma sensao de pnico, Corine Parsons  percebeu que estava prestes a chorar. Olhando para as duas mulheres que ela nunca havia visto antes, embora seus rostos fossem idnticos ao que via todos os dias ao se olhar no espelho, ela lutou com as emoes que ameaavam destruir seu controle.
Trigmeas. Ela era uma das trigmeas. No conseguia identificar sua emoo. Era alegria ou tristeza? Choque ou medo?
Qualquer que fosse a emoo, Corine sabia a primeira regra que a vida lhe ensinara. Sabia de cor. A regra era nunca chorar. Nunca.
Aprendera isso quando tinha seis anos de idade e fora para seu primeiro lar adotivo porque sua tia Ella adoecera. Aterrorizada e sozinha, ficara feliz quando encontrara um cachorrinho. Ela o escondera secretamente embaixo da varanda, roubando sobras do lixo para aliment-lo. Cuidara dele com amor, mas fora descoberta. As regras da casa tinham que ser obedecidas: nada de animais de estimao. De nada adiantara chorar e implorar.
As lgrimas fluram livremente quando ela tentara fazer seus pais adotivos entenderem como o cachorrinho era importante para ela. Mas ningum se importara.
Quando a verdadeira filha de sua me adotiva usara a jaqueta vermelha de Corine sem pedir, e aquela jaqueta era a nica coisa boa que ela possua, ela ouvira:
Voc deveria estar agradecida por poder deix-la usar a jaqueta depois de tudo o que temos feito por voc.
Dos seis aos dezessete anos, Corine trocara de lar adotivo muitas vezes. Os sete lares onde vivera haviam reprimido suas lgrimas, transformando-a em uma pedra de gelo.
E ela via essa expresso gelada toda vez que se olhava no espelho, mesmo dez anos depois de ter deixado o ltimo lar adotivo para trs.
Agora, sentada em uma poltrona de um escritrio de advocacia ricamente mobiliado, com espessos tapetes e cercada por estranhos, sentia que talvez no conseguisse se controlar durante muito tempo.
No passado, quando era uma criana sozinha com suas poucas roupas dentro de um saco plstico, aos ps de mais uma cama estranha, ela sonhara com essas coisas. Ficava deitada e desperta na escurido tentando expulsar seus medos com sonhos.
Haviam sido sonhos detalhados de uma famlia imaginria. Uma rvore de Natal com presentes. Presentes com seu nome. Uma cama sem plstico protegendo o colcho. Um pai bonito e forte que inclinava a cabea, pegava sua filhinha e a jogava para o ar. Irms que partilhavam bonecas, laos de fita e segredos.
Sonhava com algum que a amasse.
Corine, ela disse para si mesma, contendo as lgrimas, essas duas mulheres so suas irms. Mas elas a amaro e se importaro com voc, como se o simples lao de sangue pudesse automaticamente garantir esse a feto?
Quando ousou olhar para as irms, Abby e Brittany, notou alguma coisa em seus olhos. Os olhares delas eram ternos e acolhedores. Corine queria muito acreditar nisso, mas ao mesmo tempo tinha medo.
Seu jeans desbotado tinha um furo no joelho e ela mexia nos fiapos do furo com os dedos, tentando desesperadamente manter o controle.
A distncia, podia ouvir a voz do advogado falando sem parar sobre um estranho que lhes fizera doaes. Doaes-generosas: Abby ganhara uma casa, Brittany um comrcio.
Outro homem entrou e saiu, mas ela mal percebeu.
Ouviu seu prprio nome. E a sua doao. Cinco acres de terra e uma pequena casa. Suas irms pareciam ingenuamente felizes, mas ela esperava por alguma observao desagradvel. Sempre havia uma.
E logo soube o que era. Havia condies concernentes s doaes. Para receberem as doaes elas teriam de ficar ali, naquela pequena cidade litornea que nunca viram antes, durante um ano. E o pior: ao longo desse ano ela teria que se
casar.
Casar! Ela, que congelava um homem no lugar com a frieza do seu olhar! Mas, se fosse morar ali, mesmo que por um ano, poderia estar com elas, com suas irms.
E se reorganizasse toda a sua vida e as irms no gostassem
dela?
O medo foi to intenso que Corine teve a sensao de estar caindo em um precipcio.
De repente, a sensao desapareceu.
Sua irm Abby estendera a mo atravs do pequeno espao entre as cadeiras e pegara nos seus dedos. Era como se ela conhecesse o terror que Corine estava sentindo e soubesse tambm como faz-lo desaparecer.
A mo de Abby era macia, forte e quente. Ela apertou a mo de Corine, que olhou para ela. E o que viu nos olhos da irm a fez perceber que mudaria para aquela cidade independentemente de como estava assustada. No imediatamente,  claro. Tinha obrigaes que deveriam ser resolvidas. Mas voltaria assim que fosse possvel.
Assustada e excitada ao mesmo tempo, Corine admitiu que no conseguiria recusar esses presentes que lhe haviam sido oferecidos: a esperana e a ternura que via brilhar nos olhos de suas irms.

CAPITULO I
Trs meses depois...

Corine enfiou as mos nos bolsos traseiros da cala jeans e se afastou para observar a pequena  casa, quase uma cabana. Era pequena e slida, sob a sombra de uma enorme rvore. E lhe pertencia.
No importava que a varanda estivesse semidestruda, que os beirais do telhado estivessem cobertos de mofo, que as janelas estivessem encardidas e precisassem de uma boa limpeza. No importava que o segundo degrau que levava  varanda estivesse quebrado e a calefao no funcionasse, e pedras da chamin tivessem cado.
Ela suspirou e permitiu a si mesma sentir um pouco de felicidade. Nunca tivera nada.
Possua suas roupas,  claro, e seu amado e velho jipe que ainda tinha alguns pedaos da cor verde original.
Sempre alugara um apartamento em Minepolis, mesmo depois do considervel sucesso do seu livro Brandy, sobre uma jovem rf que enfrentava o mundo com coragem e sempre vencia.
Por que razo nunca comprara uma casa? Talvez por acreditar que coisas boas no pudessem acontecer, com ela.
Mesmo o fato de estar to feliz com a pequena casa a assustava. Nada na histria de sua vida permitia que ela acreditasse que coisas boas pudessem durar.
 Bem  disse em voz alta.  De acordo com minha irm Brit, este lugar no  propriamente uma coisa boa.
Brit ficara assustada com a pequena casa, o celeiro e as cercas prestes a cair, a grama crescida ao redor da casa bem como o mato e as flores silvestres da altura das cercas.
	Voc pode morar comigo e com Mitch  Brit sugerira um pouco depois de Corine ter chegado.
	Vocs so recm-casados!  Corine exclamara.
Fazia uma semana que sua irm estava casada, e ela e o marido mal puderam esperar pronunciar os votos para finalmente ficarem juntos. Corine no queria viver com aquela esperana de que os sonhos podiam se tornar realidade e que milagres aconteciam o tempo todo.
Suas irms eram prova disso, julgando pela felicidade que tinham encontrado desde que chegaram a Miracle Harbor.
Esse pensamento provocou um aperto na garganta de Corine.
Nunca chore, tinha sido a primeira regra que a vida lhe ensinara. Mas a segunda regra tambm era forte: No tenha esperana. Ter esperana podia ser a coisa mais perigosa de todas.
	Ns viremos ajud-la a limpar a casa  Abby declarou com coragem, olhando para as teias de aranha.
Corine se surpreendera ao constatar que suas irms tambm tinham medo de aranhas.
Isso fez com que sentisse um calor estranho envolvendo seu corao gelado. Logicamente, recusou a ajuda. No por no ter o costume de ser ajudada e nem por se sentir vulnervel diante do entusiasmo das irms que nada sabiam sobre ela. De algum modo, limpar tudo sozinha representava tomar posse da casa, torn-la realmente sua, de um modo que ningum pudesse rein vindic-la.
Deixou escapar um suspiro profundo e olhou ao redor. Havia servio por toda parte. O celeiro estava caindo, no existia quintal. Talvez devesse comear por l.
Corine, disse a si mesma, entre e comece a trabalhar ou dormir do lado de fora.
Ela respirou fundo, querendo saber se haveria aranhas dentro da casa. Pulou o degrau quebrado e empurrou a porta que estava destrancada.
O interior da casa era muito simples. Um cmodo grande servia de sala e de cozinha. A cozinha tinha apenas uma fileira de armrios precisando urgentemente de pintura e um balco precisando ser marmorizado. A pia estava enferrujada, mas a geladeira e o fogo eram novos e sem manchas.
Um quarto, que devia ter sido construdo depois, se ligava  cozinha por um batente sem porta. O banheiro pequeno tambm devia ter sido construdo depois, uma vez que a casa parecia ter uns noventa anos e o banheiro era moderno, limpo e bem iluminado.
Um fogo preto ficava no centro do grande cmodo como se fosse um divisor entre a cozinha e a sala.
Corine gostou das paredes rsticas de madeira e da enorme janela envidraada. Uma vez limpa, aquela janela forneceria  sala uma claridade espetacular.
Desencaixotaria primeiro seu cavalete e o armaria perto da janela, de onde poderia avistar o gramado e as flores, os galhos das rvores e o celeiro, e saberia que tudo o que via lhe pertencia.
Um raio de sol atravessou a sujeira da janela e se ps a danar no assoalho. Corine pisou no raio de sol, raspou o assoalho com a ponta do tnis e viu que a madeira era dourada e quente.
Perdida em seus pensamentos, visualizando cortinas amarelas nas janelas, tapetes no cho, tulipas vermelhas em um jarro no centro da mesa da cozinha, ela no o ouviu entrar.
	H algum aqui?	
Ela se virou assustada, instintivamente procurando algum objeto com que pudesse se defender. Sua casa ficava isolada e era longe do vizinho mais prximo. Ningum ouviria se ela gritasse pedindo ajuda.
Mas no havia nada que pudesse usar para se defender, nem mesmo uma mesinha para jogar contra o sujeito que acabara de entrar. Poderia fugir rapidamente, mas ento se lembrou da mudana. O homem devia ser um dos responsveis pela mudana que estava esperando.
A luz iluminava o desconhecido pelas costas e por um momento ela viu apenas sua silhueta. Usava chapu de vaqueiro, camisa e uma cala jeans apertada que marcava os contornos das pernas longas. Tinha ombros largos e traos marcantes.
Corine no sabia que havia vaqueiros no Oregon. Bem, na verdade, pouco sabia sobre o Oregon, a no ser que o clima era mais ameno do que em Minnesota.
	Desculpe, no quis assust-la.
	No me assustou  ela disse friamente, na defensiva.
Mas a voz dele penetrara nos seus sentidos. Seus olhos se ajustaram  luz e as feies do desconhecido se tornaram mais ntidas. Possua olhos castanhos, expressivos e serenos.
Os olhos de um homem podiam dizer muitas coisas. Corine desenvolvera esta habilidade de decifrar sentimentos e emoes desde criana.
Ele tinha uma boca bem-feita e sensual. O lbio superior era cheio e o inferior tinha uma curva acentuada.
O desconhecido deu um passo  frente, estendeu a mo e ela retrocedeu. Lembrou-se da regra nmero trs: Nunca demonstre medo.
Corine no sabia por que seu corao disparara, mas sabia que a ltima coisa que devia fazer era estender a mo para aquele homem. Sabia exatamente o que iria sentir se o tocasse: a mo dele devia ser quente, seca, forte e spera.
	Pois no? ela perguntou em um tom de voz frio, sem nenhum trao de emoo.
	Sou Matt Donahue, seu vizinho mais prximo  ele apresentou-se.  Daquele lado.
Se ele estivesse esperando receptividade, ia ficar desapontado. Corine no respondeu, apenas esperou e depois de um momento cruzou os braos sobre o peito.
	Na verdade estou interessado em comprar este pedao de terra. No soube que estava sendo vendido.
Ele no estava ali para desejar-lhe boas-vindas, como um bom vizinho.
	No estou vendendo.
Ela acabara de chegar e j sentia que o lugar era seu. E ficou com raiva daquele homem por faz-la perceber como seu corao era frgil.
	Voc ainda no ouviu minha oferta  ele disse suavemente.
	Nem tenho inteno de ouvir.
Corine no viu razo para contar ao homem que a propriedade ainda no era sua e que talvez nunca viesse a ser, e que no poderia vend-la, mesmo que quisesse. Como pudera ignorar esse detalhe ao imaginar cortinas, tapetes e tulipas vermelhas? Enquanto seu corao dizia para sempre, um documento oficial dizia outra coisa.
A exigncia era: um marido.
Por um momento, a palavra marido apareceu na sua mente ao lado da imagem daquele homem forte e bonito que a olhava insistentemente.
Desejou ser uma pessoa diferente. Mais suave e gentil, como sua irm Abby, ou mais extrovertida e sensual, como a outra, Brit.
Achou que sua frieza iria afast-lo, mas ele permanecia no mesmo lugar, como se estivesse plantado no cho.
Olhava para os dedos sem anis de Corine, o que lhe deu permisso para fazer o mesmo.
Os dedos dele eram longos e tambm sem anis. Nenhum anel, nem mesmo uma aliana combinaria com a masculinidade daquelas mos.
De repente, Corine desejou no estar usando aquele jeans to velho e a camiseta rasgada embaixo do brao. Desejou no ter dito a Brit que deixasse seus cabelos como estavam quando ela tentara ajeit-los de outra maneira.
Ele inclinou a cabea, virou-se e perguntou:
	Est esperando algum?
	O homem da mudana  ela respondeu, subitamente percebendo o que ele ouvira: o barulho de um caminho se aproximando.
	Acho que chegou. Eu vou embora...  ele fez uma pausa para que ela dissesse seu nome, mas ela no disse.
No tinha inteno de parecer nem mesmo remotamente amigvel com o vizinho que tinha o olho na sua propriedade. E... nos seus lbios.
J na varanda, Matt Donahue ergueu a mo em direo da aba do chapu, empurrou-o um pouco para trs e olhou para ela.
	Seu gado chegou.
Ela correu at a varanda. Ele estava de p no degrau de cima, olhando para o caminho de carregar gado que se aproximava.
	Eu no tenho nenhum gado.
Ele olhou por sobre os ombros. Na claridade do dia ele parecia ainda mais bonito, maior e mais forte.
Os olhos de Corine percorreram seu brao at o pulso, duas vezes mais largos do que o dela.
Sentindo-se embaraada ela tornou a olhar para os olhos dele e pde perceber que no eram apenas castanhos, tinham pontos dourados.
Sob a luz do sol pde ver tambm que havia dor naqueles olhos. Dor que podia competir com a sua prpria dor.
O vizinho pulou o degrau quebrado com a agilidade de uma pessoa que estava acostumada a pr os ps nos lugares certos.
O caminho que parou na frente da varanda parecia estar em piores condies do que o jipe de Corine.
	Corine Parsons?  perguntou o motorista, grisalho e sujo.
Ele tinha um olhar que ela podia reconhecer a milhas de distncia. Olhar de maldade.
Donahue olhou para ela para pedir confirmao e ela confirmou meneando a cabea, no se importava por ele ter ficado sabendo seu nome. Na realidade, estava at satisfeita por ele estar presente.
Sentia-se desconfortvel em relao ao motorista, de dentes manchados e olhar maldoso.
Surpresa, percebeu que Matt Donahue notara sua desconfiana, ou talvez ele mesmo no tivesse gostado do homem, porque havia algo de protetor no modo como se aproximou do caminho e respondeu por ela:
	Sim, aqui  a propriedade dos Parsons.
Corine nunca fora protegida antes, nem mesmo casualmente e no gostou de como essa atitude dele ameaou derreter o gelo que havia dentro dela.
	Certo  disse o motorista abrindo a porta do caminho e descendo.
	Sou Werner Grimes, entregando o mamute premiado. Ele  todo seu.
Matt Donahue olhou para Corine.
	Pensei que voc tivesse dito que no tinha gado.
	E no tenho! E nem sei o que  um mamute. Parece um animal extinto a milhares de anos.
O motorista foi at a traseira do caminho e se preparava para baixar a rampa.
	O senhor poderia me dar uma mo?
	Ela disse que o animal no  dela.
	Mas esse papel diz que . Foi comprado e pago.
Enquanto os homens discutiam atrs do caminho, Corine desceu os degraus da varanda e foi olhar a carroceria, atravs das ripas.
O par de olhos marrom mais tristes que ela j vira olharam-na sob as sobrancelhas fartas. Orelhas longas e feiosas voltaram-se na direo dos homens como se estivesse escutando.
Parecia o cruzamento de um animal pr-histrico com um coelho.
	Um jumento...  ela sussurrou.
Ps os dedos entre as ripas de madeira da carroceria e sentiu um focinho macio como veludo tocar seus dedos.
	Tire sua mo da!  o motorista gritou.  Esse bicho  pior do que uma cascavel. Ele comer sua mo e seu brao.
Corine olhou para Grimes espantada e pensou no focinho macio que tocara seus dedos.
	Olhe, obviamente h um engano  Matt afirmou.
	No h nenhum engano  Grimes insistiu.  Nome certo e endereo certo. Afaste-se, vou descer a rampa.
	Ela no quer o animal. E nem eu. Tenho um pasto cheio de guas quarto de milha que acabaram de parir e no estou planejando criar mulas no prximo ano.
	E bom que tenha cerca forte ento  replicou o motorista.  O animal  mais tarado que...
Donahue deu uma olhada para suas cercas precrias e interrompeu Grimes antes que ele tivesse chance de dizer o quanto o animal era tarado.
	Quanto quer para levar o mamute de volta?
Um certo tom de lamria apareceu na voz de Grimes:
	Cus, levei trs horas para carregar o animal e...
	Diga o preo.
	Duzentos e cinquenta dlares.
	No exagere.
	Est bem. Cento e cinquenta ento. Nenhum dlar a menos.
	Eu lhe darei cinquenta dlares para virar esse caminho com o jumento na carroceria.
Era um jumento perigoso, lembrou Corine. Ele poderia comer seu brao se lhe desse oportunidade. E aparentemente tinha um imenso apetite por outras coisas alm de grama. Era um animal ameaador, mas seu focinho parecia de veludo. E os olhos muito tristes.
Espere  ela disse quando viu o dinheiro prestes a ser trocado de mos.  Espere. Vou ficar com ele.
Os olhos de Grimes ficaram tristes por perder o dinheiro quase ganho.
	Voc quer o animal?!  Matt Donahue perguntou surpreso.
	Sim, quero.
Ele veio at ela a passos largos, os olhos brilhando.
	Voc tem ideia de quanto valem minhas guas?
Corine meneou a cabea negando.
	Apenas uma delas vale mais do que essa propriedade. Apenas uma.
Ela ficou tensa e olhou para o motorista.
	Descarregue meu jumento.
	Sim, madame.
	Voc sabe alguma coisa sobre jumentos?  Matt perguntou.
	No. Mas aposto que comem grama, e h muita por aqui.
	No momento voc no tem uma cerca que possa conter essa besta.
Corine ficou ressentida por seu jumento ser chamado de besta naquele tom de voz.
	Descarregue meu jumento  repetiu.
O homem deu uma olhada para Matt como a pedir sua ajuda, mas foi ignorado. Aparentemente, Matt Donahue no tinha muita fora para impedir que o jumento fosse descarregado.
Com cautela, Grimes desceu a rampa e abriu o porto da carroceria.
O jumento emitiu um rudo abafado.
	Calma, calma...  Grimes tentava acalmar o animal.
Corine percebeu que o motorista estava com medo.
O que ela estava fazendo? Estava deixando descarregarem um jumento que atemorizava at o motorista. E deveria haver um engano. Esse jumento no poderia ser seu. Por que tornar a situao ainda pior?
Qualquer que fosse a razo, ela permaneceu em silncio.
Ento se ouviu um grito agudo de dor, o som de um pesado corpo caindo e um inconfundvel som de cascos na madeira.
Matt pulou para frente quando o jumento desembestou para fora do caminho, descendo a rampa em direo  liberdade.
Sua liberdade seria breve. Matt agarrou a corda que estava presa ao jumento e o puxou. Ele comeou a andar em crculos com Matt no centro. Seus msculos estavam tensos e ele usou toda a sua fora para fazer o jumento parar.
De repente, como em um passe de mgica, o animal parou, abaixou a cabea e ergueu as ancas, a barriga estranhamente grande em relao ao corpo pateticamente magro.
At Corine, que no entendia nada de animais, podia ver que aquele jumento tinha uma histria terrvel. Seu plo tinha falhas e ele parecia faminto, os ossos saltados. Quase no se viam a crina e o rabo, cobertos de carrapichos.
Grimes entrou no caminho e pegou um porrete. Corine gritou e caminhou em direo do jumento.
Matt olhou para o motorista e disse com voz firme:
	No toque nesse animal.
Grimes parou e olhou para Matt com cautela.
	Olhe para esse pobre jumento  Matt continuou.  Ele tem apanhado e est faminto. Seus cascos no tm sido cuidados e ele deve ter vermes.
Grimes voltou ao caminho.
	Ele no era meu, no tenho nada com isso. Apenas fui pago para entreg-lo.
Depois de dar partidatrs vezes, o caminho pegou e o homem foi embora.
Donahue ainda no tinha olhado para Corine.
	O melhor que se tem a fazer  sacrific-lo.
	Mat-lo?!  Corine exclamou estarrecida.  No! 
Ela nem quis saber como se mataria um jumento.
	Ele nem  domesticado. E est doente  Matt explicou com voz calma.  E parece ser um animal de m ndole. O melhor que...
	Esse tipo de matana a sangue-frio no faz parte do meu inundo.
Ele suspirou.
Era o confronto entre um homem acostumado a lidar com animais e uma mulher da cidade que provavelmente s tivera contato com animais atravs dos filmes de Walt Disney.
Mas mesmo que ela entendesse de animais, no o deixaria matar seu jumento pela simples razo de ele no ser perfeito.
Depois de um longo tempo ele falou novamente:
	Voc no tem ideia de onde ele veio? Nem por que foi enviado a voc?
	No.
Donahue suspirou novamente.
	Onde quer que ele fique, srta. Parsons? E no diga que  pasto, antes de ter essa cerca consertada, porque voc  legalmente responsvel por qualquer coisa que acontea com as minhas guas.
Ahn... Esse era o motivo de ele querer o jumento morto.
	H uma baia no celeiro.
	Eu o porei l. Amanh virei cuidar dessa cerca.
	Eu posso cuidar da minha cerca.
	Pagaria para ver.
O jumento escolheu aquele momento para dar uma estocada e mostrar os dentes. Donahue pulou para o lado pegou a corda e puxou-o em direo ao celeiro. Corine o seguiu.
	No fique atrs dele. Provavelmente dar um coice assim que a vir.
Ela manteve distncia e seguiu-o at o celeiro.
	Espero que o celeiro no caia sobre ele  disse, observando Matt lutar com o trinco do porto da baia.
Matt instalou o jumento na baia, fechou o porto e saiu do celeiro.
	Voc tem comida para ele?
Ela pensou durante um momento.
No poderia pegar um pouco de grama? Matt leu seu pensamento.
	Voc nem sabe o que ele come, sabe?  ele perguntou, tentando disfarar a impacincia.
	Irei  biblioteca e descobrirei  ela respondeu com orgulho.
	Isso parece mais fcil do que perguntar  Matt observou com sarcasmo.
Corine lutou com seu orgulho e, finalmente, perguntou:
	Est bem. O que ele come?
	Ele precisar de feno at poder pastar. Uns dois fardos. E se voc pretende cri-lo, ele precisar tambm de aveia, embora isso far com que ele queira ainda mais perseguir minhas guas.
	Est bem. Vou comprar dois fardos de feno e aveia.
Ele olhou para o relgio.
	Bem, hoje no ser possvel. A loja de alimentos fechou s cinco.
O jumento relinchou fazendo as paredes do celeiro tremerem.
	Ele precisa de gua imediatamente. No entre na baia, certo?
Naquele momento o jumento se aproximou do porto da baia e ela decidiu no discutir com Matt Donahue, apesar de no ter gostado do seu tom autoritrio.
	Trarei um pouco de palha para fazer a cama dele e feno suficiente para alguns dias at dar um jeito na cerca.
Ele olhou novamente para o relgio, preocupado.
	Voltarei por volta das oito ou nove horas.
Corine teve muita vontade de dizer que podia cuidar de si mesma, mas na realidade precisava de ajuda. Seu jumento no podia esperar. Pereceria se no fosse cuidado logo e ela no conhecia ningum que entendesse de animais. Suas irms no entendiam e nem seus cunhados, pois um era advogado e o outro um ex-policial.
	Eu pagarei.
	Tudo bem.
Matt olhou para ela durante um momento e foi embora.
O cheiro dele permaneceu no ar por muito tempo.
Ela entrou no celeiro, fpi at a baia, ps a mo sobre o porto, esperando sentir novamente o toque daquele focinho macio, para provar que tinha feito a coisa certa.
Mas o jumento permaneceu onde estava, encostado no fundo da baia que era agora o seu novo lar.
	Eu sei tudo o que voc est sentindo  ela disse sorrindo, certa de que agira bem.

CAPTULO II

Sr. Donahue, o senhor est atrasado. Sabe que cobramos multa dos pais que pegam as crianas tarde?
	Sim, eu sei. Ponha na minha conta. Pode dizer ao meu
sobrinho que estou aqui?
Aquela mulher irritante, a sra. Beatle, apontava o dedo para ele. Ele suspirou.
	Por favor?
Em vez de ir chamar Robbie, a sra. Beatle deu incio a um discurso sobre pontualidade. Pessoas da cidade nunca entendiam o que era ter guas dando cria, cavalos sendo treinados ou jumentos chegando...
O que estaria acontecendo com ele? No conseguia tirar sua vizinha do pensamento. Ocorreu-lhe ento que fazia muito tempo no se sentia atrado por mulher nenhuma.
Podia visualiz-la atenta e assustada quando entrara na casa dela. Fora falta de educao entrar sem se anunciar, mas a porta estava aberta e era difcil acreditar que aquela casa pudesse pertencer a outra pessoa que no a ele.
A propriedade pertencera a sua famlia durante vrias geraes. At que ele a vendera. Ainda se sentia fracassado por ter tido a necessidade de vend-la, e queria compr-la novamente, como se isso pudesse apagar um perodo difcil da sua vida.
A primeira vista, na penumbra da casa, a vizinha parecera uma adolescente. Usava jeans apertado e uma camiseta grande demais. Seus cabelos cor de mel brilhavam e estavam puxados em um rabo-de-cavalo como as garotas da torcida do time de Miracle Harbor usavam. Com a diferena que as garotas da torcida sempre tinham um sorriso superficial nos lbios e a nova vizinha parecia carregar dentro de si um medo muito grande.
Matt percebera logo que o medo no fora causado por ele. Era alguma coisa que ela carregava dentro da alma.
Gostaria de saber o que poderia ter causado isso.
Ela negara que tivera medo, mas ele reconhecia aquele olhar. Suspeitava que, ao longo dos anos, ela tivera de batalhar muito na vida.
No havia maldade nos olhos dela, como no caso da sra. Beatle, que estava no captulo quatro do discurso sobre o exemplo que ele deveria dar ao sobrinho.
Antes de continuar com essa linha de pensamento, lembrou-se de que seu corao j estava em pedaos. No se arriscaria novamente.
Sua linda vizinha era complicada demais. Precisava manter-se afastado dela.
Alm do mais, era uma garota da cidade. Estava escrito na sua pele alva e macia e na suavidade de suas mos.
Ela conseguiria manter aquela casa na primavera e no vero, mas em alguns meses seria inverno e o vento frio sopraria do oceano. A estrada ficaria coberta de lama e ela teria que rachar lenha para manter-se aquecida. E, se ele tivesse sorte, antes mesmo do inverno, os gambs entrariam por baixo do assoalho da casa e a infectariam com seu cheiro. No seria a primeira vez. O imvel perderia o valor e ele poderia comprar a casa por um bom preo.
Infelizmente, sua mente j registrar as curvas suaves do corpo esguio da vizinha e o contorno dos seus lbios. Ela j despertara nele uma coisa muito forte.
Desejo. Precisava se manter longe dela.
Precisava, repetiu para si mesmo.
Mas seu corao parecia no concordar. Matt gostaria de saber se ela consideraria sua sugesto de castrar o jumento. Isso o salvaria do trabalho de restaurar a cerca.
Ele ouviu Robbie se aproximando antes de avist-lo, os pe-zinhos correndo sobre as lajotas do corredor da creche. O garoto apareceu e pulou no colo do tio, que sorriu, abraando-o com fora.
Robbie tinha cinco anos. Era to claro quando Matt, cabelos escuros e seus olhos enormes eram azuis como safiras. Parecia muito com a me quando tinha a idade dele e Matt raramente conseguia olhar para o sobrinho sem sentir um n na garganta.
Como podia uma mulher de vinte e cinco anos ter morrido de cncer de mama? Uma mulher que criava o filho sozinha?
Antes de enterrar a irm, ele era um homem de f. No a f que levava as pessoas  igreja, mas um tipo de reverncia pelo milagre da vida em cada potro que nascia, em cada flor que desabrochava, uma f em que o bem sempre vencia.
Agora, se sentia como um homem que lutara em uma guerra e no acreditava mais em nada.
Agachou-se abraado ao garoto e fingiu ter cado. Os dois rolaram no cho, sob o olhar reprovador da sra. Beatle e s pararam depois de Robbie gritar e rir muito.
	Veremos Robbie amanh, sr. Donahue?  ela perguntou quando os dois se levantaram.
Robbie apertou a mo do tio e Matt viu seus olhos suplicantes. Todos diziam que a creche seria boa para o menino, que vivia atrs do tio como uma sombra.
Diziam que ele precisava se socializar e conviver com outras crianas, que precisava aprender a contar e isso no inclua pesar raes.
Diziam ainda que ele deveria assistir ao Stio do Pica-pau Amarelo e no conviver somente com cavalos e guas.
Diziam que Robbie precisava ter uma vida estruturada.
Para isso, Matt tinha de aprender a ser pontual e buscar Robbie precisamente s cinco horas da tarde.
Mas como ele podia deixar uma pessoa que amava tanto aos cuidados da desagradvel sra. Beatle?
De fato, Matt adorava o sobrinho e a presena dele na sua vida o fizera descobrir que ainda restavam regies ternas em seu corao endurecido. Nunca sentira por ningum o que sentia por Robbie. Marianne lhe dissera que o amor sempre sobreviveria. Ela devia estar certa.
	Ahn... No, sra. Beatle, ele no vir amanh.
	Senhorita Beatle  Robbie corrigiu num sussurro e sorriu.
Claro, pensou Matt, cansado. Que tipo de louco iria querer se casar com aquela mulher?
Ela desaprovou a deciso com um resmungo, mas Matt a ignorou. Ps o sobrinho sobre os ombros e saiu para o sol brilhante de maio.
	Titia, estou com fome.
Titia...
Robbie comeara a cham-lo de titia e nada, nem palavras carinhosas nem reprimendas o fizeram mudar de ideia. Matt era titia e ponto final.
O garoto estava sempre com fome. Matt tentou lembrar-se do que tinha na despensa. Queijo e batata frita. No era realmente uma refeio.
No seu parco entender sobre crianas, ele sabia que precisava alimentar o sobrinho com produtos mais nutritivos, como verduras e protenas.
	Quer um hambrguer?
Pelo menos o hambrguer do Walt tinha molho de picles feito em casa e alface e tomate.
Robbie aceitou feliz.
Talvez pudesse pedir tambm uma salada e, mesmo que nenhum dos dois comesse, seu sentimento de culpa seria amenizado.
Depois de comerem, ele e Robbie foram para casa, alimentaram os cavalos e rumaram para a casa de Corine.
Ela estava sentada no degrau da varanda comendo batata frita. A varanda estava repleta de caixas e alguns mveis.
Matt olhou para o sobrinho e disse:
	Fique aqui. Demorarei apenas um segundo.
No queria que seu sobrinho o chamasse de titia na frente dela.
Corine levantou-se ao v-lo se aproximar. Limpou as mos na parte traseira do jeans. Como podia ser to esguia e ter tantas curvas ao mesmo tempo?
	Jantando?  ele perguntou, para logo em seguida se arrepender.
No queria entabular uma conversa. Queria apenas descarregar os fardos de feno e ir embora. Leria para Robbie sua histria preferida e, finalmente, poderia dormir.
Corine olhou para ele como se dissesse que seu jantar no era da conta dele, mas respondeu educadamente:
	Estou tentando acabar de limpar a casa para pr minhas coisas para dentro.
Robbie   obediente apenas quando lhe convinha, desceu da caminhonete e se aproximou.
__ Sou Robbie  ele se apresentou.
__ Sou Corine, mas pode me chamar de Corie, se quiser.
	Ele  meu sobrinho. Sou o tio dele  Matt acentuou a alavra tio na esperana que o garoto entendesse e no o chamasse pelo feminino.
Ela lhe lanou um olhar crtico.
	Quantos anos voc tem, Corine?  Robbie perguntou.
	Vinte e sete.
Finalmente sabia alguma coisa sobre ela, pensou Matt.
De repente, se sentiu cansado demais para ficar jogando conversa fora, queria ir embora, apesar de ela parecer ainda mais linda do que durante a tarde. Talvez porque alguns fios de seus cabelos houvessem se soltado do rabo-de-cavalo.
Mas a noite no suavizara sua fisionomia hostil, embora Matt notasse que ela j no parecia to assustada. Apenas intocvel e cansada. Como ele.
	Eu tenho cinco  Robbie declarou.
Matt interrompeu a conversa:
	Trouxe alguns fardos de feno e um saco de aveia para o jumento.
Descarregue e v embora, aconselhou-lhe sua conscincia.
Ela parecia querer mat-lo em vez de ter que lhe dever alguma coisa.
Mas ele no pde. O bem-estar do animal vinha em primeiro lugar e ela no conseguiria carregar o feno.
 O animal precisa tomar vermfugo e ter os cascos tratados. Acho que no poderei fazer isso sem derrub-lo.
	Jumento?  perguntou Robbie.
Meio milho de dlares em cavalos em casa e Robbie dissera a palavra "jumento" com a mesma excitao com que dizia o ttulo de sua histria preferida.
	A srta. Parsons tem um jumento.
	Adoro jumentos  Robbie afirmou.
- Desde quando?
Matt no esperou pela resposta. Olhou para Corine dizendo: Olhe, provavelmente voc no ir querer que seja eu a derrubar seu jumento...
	Nem voc pode derrubar um jumento  Robbie decidiu solenemente.
	No sei o que significa derrubar  Corine disse, demonstrando inquietao.
	Significa amarr-lo pelos ps e deit-lo.
Robbie e Corine olharam para ele horrorizados.
	E como voc no vai querer que eu faa isso  Matt continuou , aconselho-a a chamar um veterinrio. Logo, pois esse animal precisa de cuidados.
	Quando?  ela perguntou.  Quero dizer... Ele j est muito traumatizado.
Mais essa. Um jumento traumatizado!
	Vou lhe dar o nome de uma boa veterinria. Ela poder vir e fazer o servio. Ela lhe aplicar um sedativo se tiver dificuldade em trabalhar.
Matt sentiu uma ponta de culpa, pois isso lhe custaria alguns dlares e ele percebera que Corine usava uma cala jeans bem surrada e tinha um jipe to velho que parecia ter participado da Segunda Guerra Mundial.
	E enquanto a veterinria estiver aqui  ele disse tentando falar com naturalidade , voc pode pedir que ela castre o animal.
	Castrar?
	Seria bom para ele  Matt afirmou com a autoridade de quem passara a vida toda lidando com gado e cavalos.  Melhoraria seu temperamento.
Um brilho perigoso apareceu nos olhos de Corine.
	E,  claro, isso o impediria de procurar suas guas.
	Cus, eu nem tinha pensando nisso...
Matt procurou dar  voz um tom de inocncia, mas ela no era tola. Lidar com Corine era mais difcil do que lidar com um porco-espinho.
	O que  castrar?  Robbie quis saber.
Corine e Robbie trocaram olhares e Matt teve a sensao de que estavam conspirando contra ele.
	Mais tarde eu lhe digo.
	Quero saber agora.
	No.
Robbie pareceu surpreso. Matt nunca falara com ele naquele tom.
	Posso ver o jumento?  o garoto perguntou baixinho.  Por favor, titia? Por favor...
	Titia?!  ela exclamou incrdula.
Matt suspirou. Bem, pelo menos no teria mais que se preocupar com aquilo. Corine sorrira pela primeira vez e  sua custa.
	E uma longa histria e no estou disposto a cont-la agora. Posso descarregar o feno, mostrar o jumento para o meu sobrinho e ir para casa?
	Certamente.
	Otimo. Suba na caminhonete.
Ela no se mexeu.
	Voc quer aprender como aliment-lo, no quer?
Corine olhou para ele e, com graciosidade* subiu na carroceria e no na cabina.
Para desagrado de Matt, Robbie subiu junto com ela.
Pelo retrovisor ele a viu ajeitar os cabelos, alisar a camiseta e umedecer os lbios. Isso significaria alguma coisa?
	Espero que no  ele disse em voz alta.
De r, Matt encostou a caminhonete perto do celeiro e quando chegou  carroceria Corine estava tentando erguer um fardo pelo barbante que o amarrava. Ele sabia bem o que aquele barbante faria com as mos dela.
 Eu fao isso  ele declarou. Mas poderia ter poupado suas palavras, pois era evidente que ela no desistiria.
Agora tentava empurrar o fardo com os ombros. Nada.
Matt teve vontade de cruzar os braos e ficar olhando, mas no era esse tipo de homem. Subiu na carroceria, passou por Corine e pegou dois fardos, um com cada mo. Fingindo ignor-la, dirigiu-se ao celeiro.
Matt olhou por sobre os ombros. Ela conseguira virar um fardo e, ajudada por Robbie, tentava rol-lo at a porta do celeiro. Gemendo, ela conseguiu.
Matt pegou um canivete e cortou o barbante. Corine se aproximou para olhar, arfando.
	V como o feno se solta?  ele perguntou.  Essas partes so chamadas de flocos.
Matt explicou como alimentar o jumento. At parecia um homem sensato, cujo pensamento estava a quilmetros de distncia dos seios arfantes da bela vizinha.
Isso era prprio da natureza dos homens, ele se desculpou. Olhar para uma mulher bonita mesmo sem querer.
Desviou o olhar e pegou os primeiros dois flocos de feno, colocando-os na manjedoura.
O burrinho agradeceu abaixando as orelhas enormes e se aproximando para comer. Robbie gritava entusiasmado, como se estivesse vendo um animal extico ou adorvel.
Corine tambm sorria com indulgncia diante dos maus modos do jumento.
Acima do cheiro do celeiro, do feno fresco e do jumento, Matt podia sentir o cheiro de Corine. Do xampu, do desodorante, do sabonete e de alguma outra coisa mais doce e suave que quase lhe tirava a respirao. Tentou identificar o perfume, mas no conseguiu.
O que ele poderia fazer era nunca mais voltar ali. Nunca mais. Mas, se fizesse isso, teria vrias ninhadas de pequenas mulas no ano seguinte, depois que aquele jumento derrubasse a cerca e deixasse todas as suas guas prenhes.
	Titia  Robbie disse sonolentamente, encostando a cabea
na barriga do tio quando, alguns minutos depois, eles se diri
giam para casa.  Quero ver aquele jumento outra vez.
Seu sobrinho acabara de dizer como os fatos iriam se suceder. A vida estava lhe dizendo como iria ser, mas ele ainda lutava.
	Voc no acha que sua gua  melhor? Voc pode cavalgar, acarici-la, chegar perto dela.
	Eu no gosto de Cupie Doll  Robbie disse com firmeza.  Ela tem olhos maus.
Cupie Doll era uma gua premiada. Matt relutara em aposent-la e Robbie tinha razo. Doce quando estava prenhe, ficava intratvel quando no carregava um filhote na barriga.
Para ser cavalgada era tima. Gentil e previsvel, uma perfeita montaria para uma criana. Mas a expresso de mau humor nunca mais deixara seus olhos depois da ltima cria.
Talvez Robbie fosse melhor observador de cavalos do que ele imaginara.
	E aquela coisa no tem olhos maus?
	Corine?  Robbie perguntou indignado.
Nem Matt iria to longe. Apesar do mau gnio, Corine no tinha olhos maus.
	O jumento  ele respondeu.
	Oh, no! Ele no tem olhos maus. Eu posso voltar? Por favor, titia?
Fazia muito tempo que no via o sobrinho entusiasmado. Os dois andavam como robs, depois da morte de Marianne, seis meses atrs.
Qual a razo de aquele jumento atrair tanto o menino? Ter atrao por coisas perigosas talvez fosse um trao da famlia. Mas qualquer que fosse o motivo, ele no podia apagar o brilho que vira nos olhos do garoto. Nem mesmo pela sua auto preservao.
	Voltaremos l daqui a alguns dias.
Matt deixara comida para mais de uma semana, mas teria que cuidar daquela cerca.
	Est bem  Robbie concordou.  Ela  muito bonita. Gosto dos olhos dela. Tem muitas cores.
	Realmente.
Muitas cores... Teria que prestar mais ateno quando a visse novamente.
Matt suspirou. Esta no era a primeira vez que a vida fugia do seu controle, mas toda vez que isso acontecia o final era ruim. 
Corine observou a caminhonete se afastando. E s quando ela desapareceu  que pde respirar livremente.
Seria a fora daquele homem que lhe tirava o flego?
Quando ele ergueu os dois fardos de feno, cada um em uma mo, ela ficara ressentida. Mas, por baixo daquele ressentimento, alguma outra coisa surgiu perigosamente.
Desejo.
	Corine Parsons  ela disse a si mesma em voz alta, olhando pela ltima vez para o jumento.  Voc no vai se deixar guiar por um sentimento to bsico.
Uma pequena voz dentro dela lamentou piedosamente.
Ela ignorou e voltou para casa, para terminar a limpeza.
Finalmente, exausta, jogou o colcho no meio da sala.
Mas seu plano de trabalhar at a exausto para no pensar em mais nada fracassara.
Estava exausta demais para controlar seus pensamentos.
E eles se dirigiam a Matt Donahue com a naturalidade das ondas que chegam na praia. Imaginou-o erguendo os fardos de feno, um em cada mo, os msculos retesados e o suor escorrendo pescoo abaixo.
Lembrou com perfeita clareza dos seus olhos calmos que pareciam perceber mais do que ela gostaria de revelar.
Tentou controlar-se lembrando que ele era o homem que queria sacrificar o jumento, mas em vez disso, lembrou-se do seu olhar quando o sobrinho o chamava de titia.
To grande, to msculo, to forte e era chamado de titia.
Corine sorriu e se ps a pensar no garoto.
Na realidade, apesar do sucesso do seu livro Brandy, ela no gostava de lidar com crianas. Esse era o motivo de nunca fazer palestras. Crianas eram vulnerveis demais, abertas demais e ansiosas para confiar e amar.
Crianas exigiam coisas que ela no tinha capacidade de dar.
Ela suspirou. O jumento comeou a relinchar, rompendo o silncio da noite.
Subitamente, deu-se conta de que deixara aquele homem cuidar dela e da situao.
Bem, fora uma emergncia, devido  inesperada chegada do jumento. Mas, deix-lo consertar a cerca seria demais.
Gostaria de ver, ele dissera naquele tom autoritrio que a deixara furiosa. Como se ela no pudesse cuidar daquele jumento e daquela cerca!
Estava decidida a recusar a ajuda dele. Havia alguma coisa perigosa demais nele. Ela poderia consertar a cerca sozinha e impedir que o jumento passasse para as terras dele.
Faria tudo sozinha. Sabia por experincia prpria que essa era a maneira mais segura.

CAPITULO III

Matt conseguiu ficar afastado da casa dela durante seis dias, tempo que conseguiu segurar o sobrinho e o tempo que duraria a comida do jumento.
Ocorreu a Matt que ele poderia ter cedido e ido  casa da vizinha todos os dias. Talvez, se ela tivesse a oportunidade diria, o teria insultado o suficiente para que ele no pensasse tanto nela.
Matt nem se lembrava mais de quanto tempo fazia que no beijava uma mulher. Fora Brbara a ltima mulher que beijara? Eles haviam se separado pouco depois do diagnstico da doena de sua irm. Fazia muito tempo, mas ele ainda estava vulnervel.
Com essa vulnerabilidade em mente, chegou  casa de Corine bem cedo. Se tivesse sorte, consertaria a cerca antes dela acordar.
	Voc vai olhar o jumento, Robbie, e eu vou ver se...
	Corie  disse Robbie.
	Sim, se Corie est acordada. No entre na baia de jeito nenhum, certo?
	Certo, titia.
Matt subiu os degraus da varanda, lembrando-se de pular o degrau quebrado, mas mesmo antes de chegar  varanda ouviu o som de marteladas.
Virou-se e l estava ela, vestida com uma camisa amarela e os jeans surrados, no meio do gramado alto.
Estava consertando a cerca sozinha.
Matt sabia que isso era um ponto de honra para ela e o bom senso lhe sugeriu que pegasse Robbie e fosse embora.
Mas ficou com pena dela. Era triste ela pensar que tinha de fazer tudo sozinha, como se tivesse que provar alguma coisa.
V embora, disse a si mesmo.
Subitamente, sentiu que Marianne o estava observando, parecendo decepcionada, esperando que ele agisse como um cavalheiro e fizesse a coisa certa. Marianne fora uma mulher sozinha. E se fosse ela, ali, consertando aquela cerca?
Ele suspirou, se aproximou e observou o que ela tinha feito.
Levara seis dias para fazer aquilo?
As ripas da cerca haviam sido colocadas do lado errado dos postes. Cada uma tinha uma altura em vez de formarem uma linha reta.
Ele olhou com suspeita para um prego acabado de ser pregado e deu um tapa na ripa com a palma da mo. A tbua caiu com facilidade. Suspeitava que ela estava usando pregos de pregar quadros na parede.
Cercas a prova de jumentos precisavam ser mais fortes.
Voltou  caminhonete, pegou uma caixa e um avental com bolso para carregar ferramentas. Vestiu-o com certa relutncia, pensando se os gladiadores se sentiam da mesma maneira antes de entrarem em uma arena.
Robbie estava conversando com o jumento que o ignorava.
	Vou trabalhar na cerca, voc quer vir junto? Voc pode ajudar.
Ajudar era uma palavra mgica para Robbie. Mas dessa vez no surtiu efeito.
	No, obrigado, vou ficar aqui.
Esta era a primeira vez que seu sobrinho recusava a fazer alguma coisa com ele e Matt ficou com cime do maldito jumento. Soubera que este jumento era m notcia no primeiro momento em que pusera os olhos nele.
Meneando a cabea, Matt saiu do celeiro e se dirigiu  cerca.
Fez barulho ao se aproximar, para no assust-la novamente.
	Bom dia  ele disse.
Ela estava tentando colocar uma ripa no lugar. Olhou para ele como se no o tivesse ouvido chegar e tornou a olhar para a cerca.
	Posso cuidar da minha cerca sozinha, obrigada  ela disse dando uma martelada vigorosa e perdendo o prego.
Ela olhou para ele, que permaneceu srio. Sabia que se sorrisse estaria em apuros.
 uma boa cerca  ele disse.  Eu a constru no vero em que tinha dezesseis anos. Acho que  tempo de refor-la.
Observou as ferramentas que ela estava usando. O martelo parecia de brinquedo. Sua irm tinha um igual que usava para pendurar quadros na parede.
	As tbuas ainda esto boas  ele acrescentou.
	Geralmente  ele continuou. , quando se constri esse tipo de cerca, montam-se as ripas do lado de dentro do poste.
Ela parou e olhou para ele que notou que Robbie tinha razo sobre a cor dos seus olhos. Eles tinham realmente muitas cores, no eram apenas castanhos.
Corine olhou para a cerca, verificando que pregara as ripas do lado de fora do poste.
Ela lhe endereou um olhar arrogante como que a dizer que homens punham defeito em tudo.
Matt se aproximou mais e sentiu o cheiro dela novamente. Seus cabelos brilhavam sob a luz do sol e ela tinha algumas sardas no nariz.
Usava uma camisa amarela abotoada e seu jeans estava rasgado nos lugares errados, ou nos certos, dependendo de como se olhava.
	Veja  ele disse.  Se um animal forar essa cerca  ele bateu na ripa delicadamente com se_u martelo, um martelo de verdade , ela vai ceder.
A tbua caiu e Corine deu um gritinho.
	Mas, se voc forar desse lado, ela no ceder.
	Oh...  ela murmurou decepcionada.
	Alm do mais, voc tem que usar pregos grandes. Que tipo de prego voc est usando?  ele disse pegando um deles.
	Eu no sabia que pregos tinham nomes.
Matt ignorou que ela estava tentando discutir com ele.
	E um martelo grande torna o servio mais fcil.
	Resumindo: pregos e martelos errados, lado da cerca errada. Estou fazendo alguma coisa certa?
	Na realidade, no.
Ela olhou como se fosse jogar o martelo contra ele.
	Levarei apenas alguns minutos para consertar isso. Se voc quiser fazer outra coisa...
	Como, por exemplo, biscoitos e ch?
	Madame, fao esse servio h muito tempo. No estou questionando suas habilidades e nem tentando insult-la. Estou apenas tentando manter seu jumento longe das minhas guas. E posso mostrar como faz-lo.
	Posso fazer sozinha!
	Gostaria de ver, mas aquelas guas so minhas e no posso esperar.
	E eu sou responsvel pelo que acontecer com elas  ela o lembrou com cinismo.
Matt percebera que esse era o rumo mais fcil para ela aceitar sua ajuda. Mostrar que ele estava consertando a cerca por ele e no por ela.
E era a verdade, no era? Ou era por alguma coisa mais? Seria apenas para no desapontar Marianne?
No pense nisso, ele se aconselhou. Pegou um punhado de pregos do bolso do avental.
	Tenha cuidado com estes. Pregos e unhas no combinam.
Isso a fez olhar para suas unhas que estavam em pssimo estado.
	Robbie est no celeiro com seu jumento. No tem importncia para voc?  Ele pegou uma tbua.  Pode segurar na outra extremidade? 
	Fiz muito progresso com aquele jumento  ela disse, fazendo o que ele pedira, sem protestar.
	O que voc considera progresso?
	Ele no me odeia mais.
	Isso  bom. Erga mais essa tbua. Isso, assim est bem.
	Voc cuida do seu sobrinho enquanto a me dele trabalha?
Matt foi pego de surpresa pela pergunta e sentiu como se tivesse levado um soco na cabea. Talvez por Miracle Harbor ser uma pequena cidade e todos saberem da histria.
	Minha irm morreu. Cncer de mama. Tinha vinte e sete anos.
	Matt... Isso  terrvel. Sinto muito.-
Ele olhou para ela e notou que seus olhos no tinham mais aquela frieza caracterstica. Tinha os olhos midos e mordia o lbio inferior.
Matt notou que ela era uma daquelas pessoas que sentiam tudo muito profundamente e por isso construra uma muralha para se defender da intensidade dos seus sentimentos.
Quando isso aconteceu?  ela perguntou suavemente, tocando a manga da camisa dele.
Esse ato o fez sentir necessidade de falar, de contar e pr para fora toda a dor que sentia.
Ficou estarrecido de como era vulnervel a um simples toque.
Corine notou e retirou a mo imediatamente, como se tivesse se trado.
	H seis meses.
	E Robbie... Ele est bem?
	Na maioria dos dias.
Ela no perguntou como ele estava, graas a Deus. Delibe-radamente, voltou ao trabalho e ela o acompanhou.
	Onde est o pai dele?
	Minha irm nunca disse quem  o pai dele.
E, como ela iniciara a conversa, ele sentiu-se  vontade para fazer algumas perguntas:
	O que a trouxe a Miracle Harbor? Seu sotaque parece do norte.
	Tenho famlia aqui. Sou de Minneapolis.
O tom da sua voz lhe disse duas coisas: sua famlia significava tudo para ela e no gostava de falar sobre si mesma. Mas decidiu tentar mais uma pergunta:
	O que voc vai fazer aqui?
	Prover abrigo para jumentos sem teto  ela respondeu sria.
Matt ergueu-se, ps o martelo no bolso do avental e disse:
	Vou dar uma olhada em Robbie.
Robbie no vira o tio se aproximar e ele parou  porta do celeiro.
	E minha me tinha um cheiro bom, como biscoitos no forno e lenis limpos.
Coisas que Robbie no sentia havia muito tempo, pensou Matt.
Robbie no falava com ele sobre Marianne. Por qu? Ele veria a dor nos olhos do tio toda vez que o nome dela era mencionado? Teria Matt, inconscientemente, refreado o menino?
Talvez falar com o jumento fosse mais seguro. Ele no respondia e no partilhava a dor.
	Oi  Matt disse suavemente.
Robbie se virou e sorriu, um sorriso real que lhe tocou o corao.
	Ele  um jumento muito bom.
O jumento, que cochilava, abriu os olhos ao ouvir a palavra "bom" e mostrou os dentes amarelos para Matt.
	Oh, sim, posso ver. E agora, quer me ajudar com a cerca?
	Oh, no, estou lhe contando coisas importantes. No posso parar agora.
Eu ouvirei essas coisas importantes que voc tem para dizer. Deveria dizer isso a Robbie naquele momento? E se no soubesse o que responder a ele?
	Tem soda no isopor, na caminhonete. Se quiser uma...
	Est bem.
Matt pegou uma soda para ele e hesitou, pensando se deveria levar uma para Corine. Decidiu pegar e voltou  cerca.
	Pronta para uma pausa?  ele perguntou.
Q sol estava alto e quente e ela estava suada.
t Eu posso fazer o resto. Aprendi.
	Eu sei, mas meu sobrinho est conversando com seu jumento e ainda no posso ir.
Queria dizer a elt que seu sobrinho estava fazendo confidncias ao jumento e perguntar se ela sabia o que fazer, como agir nessa situao.
Ela sorriu e ficou ainda mais bonita. Olhou para a soda e voltou ao trabalho, martelando um prego que entortou na segunda pancada.
Se ela tivesse dito alguma coisa, ele talvez se abrisse, mas sabia que no deveria forar a barra.
Corine era uma pessoa assustada e ele no queria piorar a situao.
Ento, ele tirou a tampa da soda e a deu a ela.
Resignadamente, ela ps o martelo no cho e pegou o refrigerante.
Matt apostou que mais tarde ela teria dificuldade para encontrar o martelo no meio da grama alta.
Ele pegou o martelo e desentortou o prego.
Voc est se exibindo novamente.
Mesmo que no estivesse, ele no deixou de notar como ela olhava para os msculos dos seus braos.
Corine tomou outro gole da soda e se repreendeu. Tinha decidido no aceitar a ajuda dele e agora, no s aceitara sua ajuda como admirava seus bceps, fato que a deixara profundamente embaraada e que ele percebera.
Mas Robbie e a morte da sua me pareciam mudar tudo.
Ela era irresistivelmente atrada por rfos. Por isso Brandy fora um sucesso. Ela desabafava suas emoes nos livros e na pintura.
E sabia tudo sobre ser um rfo. Sabia tudo que o garoto estava sentindo.
Tambm sabia o que seu tio sentia debaixo de todo aquele machismo.
Os olhos de Matt Donahue no eram inexpressivos. Seus olhos demonstravam dor e confuso e, se o modo como olhava para o sobrinho fosse uma indicao, ele possua uma enorme capacidade de amar.
O que ela tinha a fazer era terminar a cerca e livrar-se dele. Agradecer-lhe por ser um bom vizinho e v-lo ir embora para no mais voltar.
No queria mais fitar os olhos escuros de Matt que pareciam ler-lhe a alma.
Um olhar daquele tipo poderia fazer uma pessoa sentir-se muito fraca, poderia fazer algum imaginar que o tipo de milagre que acontecera com suas irms poderia acontecer tambm com ela.
No queria iludir-se e nem manter esperana. No queria mais sofrer.
Tomou toda a soda e jogou a lata, tentando se lembrar onde pusera o martelo. Procurou durante quinze minutos sob o olhar dele.
Corine tinha a terrvel impresso de que Matt sabia onde o martelo estava, mas que no diria se ela no perguntasse. Quando o encontrou, sua simpatia por ele havia desvanecido. Estava ressentida com a expresso alegre dos olhos dele, com a facilidade com que ele pregava as tbuas da cerca e por no ter conseguido fazer nada sem ele.
Estava ressentida tambm por suas irms terem recebido milagres, tendo confiana suficiente para aceit-los.
Ps todo seu ressentimento na martelada seguinte e pde sentir seu poder. Ia mostrar que no precisava dele, ia mostrar que...
De repente errou o prego e martelou a base do polegar. Ouviu um estalido de osso quebrado e durante alguns segundos no sentiu nada. Logo em seguida sentiu uma dor aguda que a fez gemer. Pelo canto do olho, viu Matt observ-la. Segurando o pulso com a outra mo, ela ajoelhou-se e encolheu-se, como se quisesse aplacar a dor.
Em um segundo, Matt estava a seu lado, ajudando-a a levantar-se.
	O que aconteceu? Machucou a mo? Deixe-me ver.
Ele desdobrou-lhe os dedos e examinou o polegar.
A mo de Matt era exatamente como ela havia imaginado na primeira vez que o vira e recusara a lhe estender a mo. Era firme, quente e spera. Mos de um homem forte e passional.
O que ela no esperava era a ternura que acompanhava seu toque. Ela percebeu que ele tinha um cheiro msculo, um misto de cavalos, feno e couro combinado com um delicioso perfume de sabonete, xampu e loo ps-barba.
Em alguma remota regio do crebro ela sentiu pnico. Era sua mo direita, a mo com que escrevia e pintava. Tinha uma casa para limpar e um jumento para cuidar.
	Acho que seu dedo est quebrado. Est roxo e num ngulo estranho.
	Estou bem, pode deixar...
Matt olhou para ela atnito, mas no alterou a voz:
	Vamos pegar Robbie no celeiro. Acho que teremos de ir ao hospital.
	No vou ao hospital  protestou Corine, olhando para o dedo roxo.  Posso at ergu-lo. V?
Matt riu e foi o sorriso mais maravilhoso que ela j vira, parecia estar contido dentro dele por muito tempo. Matt ergueu-a e amparou-a.
	Pode andar? Ou quer que eu a carregue?
	 o dedo da mo e no do p.
No me carregue, no me carregue, no me carregue. Deus,  como se eu fosse criana novamente, ansiando para ser carregada e acariciada.
	Obrigado por me avisar. Eu tenho a tendncia de misturar certas partes da anatomia humana.
Ele a conduzia at o celeiro, sempre falando baixo e e ducadamente. A dor estava deixando-a nauseada. Ela parou por um minuto e respirou fundo.
Matt olhou para ela e imediatamente a puxou contra seu peito. Corine nem protestou. Estava quase desfalecendo. Abandonou-se sobre o peito dele sentindo seu calor e sua fora. Estava deixando que ele cuidasse dela e isso era muito bom.
E foi ento que ela quebrou a regra nmero um e... comeou a chorar.

CAPITULO IV

Robbie no estava mais no celeiro. Corine parara de soluar, mas estava plida e trmula na luta para manter o controle. Matt sabia que ela no queria desmaiar e que estava lutando para no se abandonar contra o peito dele.
Queria dizer a ela que estava tudo bem, que no se preocupasse, mas sabia que uma simples sugesto no seria suficiente para que ela relaxasse.
Teve um pensamento maldoso sobre onde ele gostaria que ela relaxasse e ao mesmo tempo pensou de onde teria vindo esse pensamento. Beleza  parte, ela era reservada e complicada demais.
Pelo menos um homem de juzo perfeito saberia disso.
Mas sua sanidade mental parecia ter se esvado com a chegada daquele jumento.
Ele no entendia por que ela agia de maneira to rude e se sentia abalada por estar sendo ajudada por outro ser humano.
	Robbie!  ele chamou impaciente e um pouco nervoso.
Essa no era hora de seu sobrinho desaparecer. Bem no momento em que estava comeando a pensar que tinha sido irresponsvel por ter deixado o garoto sozinho.
A porta da casa dela estava aberta.
Robbie, para o embarao de Matt, apareceu de dentro da casa. Matt olhou para Corine para ver se ela estava ofendida, mas ela nem pareceu notar.
Robbie sorria, at que os viu e parou.
	O que aconteceu?  perguntou o garoto assustado.
	Ela machucou o dedo. Apenas isso.
Deveria acrescentar que ela no ia morrer?
Tentando parecer casual, disse apenas:
	Vamos lev-la at o hospital. Suba na caminhonete. O que voc estava fazendo dentro da casa?
	Est tudo bem  ela sussurrou.  Eu no me importo.
	Mas eu sim. No quero que ele entre na casa dos outros sem ser convidado.
Cuidar do sobrinho tornara-o consciente de como vivera em uma feliz ignorncia at essa data.
	Tive que ir ao banheiro  Robbie disse indignado.
Corine riu e o som de sua risada pareceu estranho em uma mulher que quase nem sorria.
Matt disse a si mesmo que no queria saber o motivo e que no pretendia mudar isso.
Mas no apostava nisso. E gostaria de saber o motivo.
Abriu a porta da caminhonete e a colocou no meio do banco. Por um momento ficou to perto dela que pde sentir partes suaves do seu corpo. E se afastou to depressa que bateu a cabea, o que era exatamente o que estava precisando. Um bom soco na cabea.
Robbie entrou pelo outro lado e assim que Matt ligou o motor viu, pelo canto do olho, que o sobrinho dizia alguma coisa no ouvido de Corine.
No conseguiu ouvir o que o garoto dissera, mas percebeu que Corine enrijeceu, virou a cabea e olhou para Robbie. De repente ela relaxou e deixou que seus ombros tocassem em Matt de um lado e em Robbie do outro. O menino no precisou de convite para encostar a cabea no ombro dela, com um sorriso feliz nos lbios.
Corine hesitou e com a ponta dos dedos da mo que no estava ferida, acariciou os cabelos loiros de Robbie.
A ternura que surgiu no rosto dela fez Matt conter a respirao. Ela no estava apenas bonita. Ficava maravilhosa quando a animosidade deixava seu olhar.
Corine se surpreendeu, afastou a mo dos cabelos de Robbie e olhou rapidamente para frente.
Chegaram  cidade em sete minutos, o que era um recorde at mesmo para ele, o maior corredor de Miracle Harbor.
O hospital estava localizado em um banco de terra que dava para a baa e para a cidade, uma vista que ele tinha visto milhes de vezes antes, mas que parecia diferente neste dia. Sentiu que esse fato tinha muito a ver com a presena de Corine.
A emergncia estava vazia e a enfermeira de planto parecia admirada de ter um paciente.
	Voc poderia chamar minhas irms?  Corine perguntou a Matt, dando-lhe o nmero do telefone, enquanto a enfermeira a conduzia  sala de raio X.  Abby e Brit.
Matt telefonou a uma das irms e ouviu uma voz quase idntica a de Corine. No eram exatamente iguais, pois o sotaque as diferenciava.
Mesmo assim, nada o havia preparado para o que ele viu no momento em que ergueu os olhos da revista e olhou para a porta de entrada da emergncia.
Era a mesma Corine que entrara pela porta da sala de raio X meia hora atrs, mas aquela usava um jeans desbotado e camisa amarela e esta outra Corine parecia ter sado de um desfile de modas em Paris.
Para aumentar sua confuso, outra verso de Corine apareceu bem atrs da primeira.
Robbie arregalou os olhos e observou em voz alta:
	Trs Corines!
As mulheres os vifam e se aproximaram.
Confuso, Matt levantou-se da desconfortvel cadeira de vinil.
	Voc  Matt Donahue, o vizinho de Corine? O homem que telefonou? O que aconteceu?  perguntou a jovem elegantemente vestida.
Ela no era nem um pouco parecida com Corine. Era extrovertida e segura de si. E a outra tinha uma serenidade que tambm no era caracterstica de Corine.
Como podiam trs mulheres se parecer tanto fisicamente e terem personalidades to diferentes?
	Ns... Estvamos consertando a cerca e ela deu uma martelada no dedo. Acho que quebrou o polegar.
	Consertando a cerca...  a extrovertida falou, sem mostrar muito interesse pelo dedo da irm.
Ela lanou  irm um olhar que ele no conseguiu interpretar e em seguida estendeu a mo.
	Sou Brit e esta  Abby.
Eles se cumprimentaram e Matt mais uma vez observou como eram diferentes. Brit era eltrica e Abby serena. Lembrou-se que Corine no lhe estendera a mo para o cumprimentar, na primeira vez que haviam se visto, uma semana atrs, quando sua vida ainda estava sob controle.
Robbie, que nunca deixava passar nada, aproximou-se e se apresentou tambm.
Brit cometeu o engano de elogi-lo:
	Oh, ele  adorvel!
Quando Robbie franziu o nariz, Abby sorriu para ele.
	A nossa  melhor  Robbie disse, cruzando os braos sobre o peito, analisando as duas irms.
Ento, dirigiu-se  caixa de brinquedos e comeou a brincar.
Matt sentiu uma onda de calor ao redor das orelhas. Logicamente, as irms no sabiam que ele estava se referindo a Corine quando disse nossa, como se tivessem ido a um shopping e escolhido a melhor das trs gmeas.
	Onde est ela?  perguntou Brit.  Ela est bem?
	Ela estava com muita dor, mas como lhes disse, foi o polegar. Bem longe do corao.  Ele sentiu as orelhas esquentarem novamente.  Aquele jumento est dando muito trabalho.
	Jumento?  Brit perguntou.  Ento voc  vaqueiro?
	Eu crio cavalos quarto de milha.
Isso fez com que a irm quieta desse um cutuco na outra. Antes que ela comeasse a contar'a histria da sua vida, ele disse:
	Sua irm foi conduzida  sala de raio X.
Matt tinha certeza de que a irm chamada Brit ignoraria o aviso que proibia a entrada. E foi exatamente o que ela fez. Dirigiu-se  porta do raio X e a empurrou.
	Acho que no  permitida a entrada  ele sugeriu, sem convico.
Brit o deixava nervoso. Ela tinha a palavraproZe/nas escrita na testa. Ele notou o anel brilhando no dedo e apostou que dava muito trabalho ao pobre marido.
	Ahn...  Brit olhou para a irm.  Voc vem Abby?
Abby hesitou, sorriu para Matt e seguiu a irm.
Deus, ele pensou tornando a se sentar. Trigmeas.
Ocorreu-lhe ento que, com as irms ali, no tinha mais sentido ele permanecer esperando. Isso se fosse totalmente honesto consigo mesmo.
Mas as boas maneiras mandavam que ele ficasse para saber se ela estava bem. No podia ir embora antes de saber.
Pareceu-lhe um longo tempo at que as irms saram da sala de raio X.
	Ela est quase pronta  Brit informou alegremente, olhando para ele com doura.  Voc no se importa de lev-la para casa, importa-se? Tenho uma emergncia nos meus negcios  ela mostrou o celular para ele, como se tivesse acabado de receber uma ligao.  E Abby tem que ir para casa imediatamente.
Mesmo no levando em conta o olhar confuso de Abby ele teve a impresso de que era mentira. Matt reconhecia muito bem o tipo de pessoa que Brit era. Uma casamenteira. Mas, antes que pudesse responder, Robbie materializou-se ao seu lado, pegou-lhe a mo e olhou solenemente para as irms.
	E claro que a levaremos para casa. Ela  nossa vizinha.
Brit pareceu emocionada com a notcia e Abby riu. Sua risada era bonita, rica e melodiosa. Isso o fez pensar como seria a risada de Corine, se ela risse.
Brit empurrou Abby para a porta e ofereceu uma carona para a irm.
Momentos depois, Coriie surgiu  porta da sala de raio X. Tinha o brao estava engessado do cotovelo at o polegar. Seus olhos percorreram o ambiente.
	Onde esto minhas irms?
	Ambas tinham coisas urgentes para fazer e pediram-me que a levasse para casa.
Corine tambm pareceu entender a situao porque seu rosto ruborizou, ela inclinou a cabea e respirou fundo. Quando olhou para ele novamente seus olhos e a altivez do seu queixo mostraram que ela no estava nem um pouco interessada nele.
	Isso serve para ns dois  ele resmungou.
	Como?
	Eu penso o mesmo que voc.
Ele gostaria que as irms dela, Brit em particular, tivessem visto o olhar de Corine. Foi um olhar que congelaria qualquer inteno de casamento.
O que era um alvio.
	Agradeo que me leve para casa  ela disse polidamente.
Mas ele sabia que suas boas maneiras a impediram de dizer:
Eu preferiria ir na carroceria de um caminho cheio de crocodilos, mas minhas opes so limitadas.
Era bvio para ele que Corine queria apagar toda a vulnerabilidade que demonstrara horas atrs.
No queria ser a mesma mulher que soluara sobre seu peito.
Ela deu um jeito de pr Robbie no meio do banco da caminhonete durante o caminho de volta e Matt achou melhor. Quem queria aquele ombro frgil encostado no dele?
Para ser franco... Ele queria.
Matt tentou amenizar o mal-estar que se instalara entre eles.
	Voc poderia ter me derrubado com uma pena quando suas irms entraram na emergncia.
	Teria que ser uma pena muito grande  Robbie comentou.
Ela tentou no rir, mas no conseguiu.
Matt esperava que isso quisesse dizer que ela notara como ele era grande e que no merecia o ttulo de titia.
Depois de um momento, Matt suspeitou que ela estava tentando no responder ou lutando para suprimir qualquer emoo na resposta:
	Foi exatamente assim que eu me senti na primeira vez que as vi.
Ali estava um assunto neutro sobre o qual poderiam conversar, mesmo percebendo que ela tentava* duramente disfarar a dor de sua voz.
	Na primeira vez que as viu?  ele perguntou surpreso.
	No fomos criadas juntas. Fomos separadas ainda muito novas.
Isto explicava os sotaques diferentes. Ele olhou-a pelo canto do olho. Corine estava plida, como se os analgsicos tivessem perdido o efeito. Ou o assunto seria difcil demais para ela? Ele no tinha certeza.
No pergunte mais nada, disse-lhe a voz interior.
Mas ele no obedeceu:
	Por qu?
	Ns ainda no sabemos. Estamos tentando descobrir. H uma velhinha, a sra. Pondergrove, que deve estar envolvida. Mas ela est de frias e ns no pudemos perguntar-lhe nada. O marido de Abby foi policial e est fazendo investigaes.
	E...
Ela olhava fixamente para frente.
	Meus pais morreram em um acidente de automvel quando tnhamos trs anos. Eu fui viver com minha tia, irm da minha me. Durante algum tempo. No sei por qu, minhas irms foram para outro lugar.
Sua voz ficara espremida quando ela dissera algum tempo. Mas ele iria arquivar isso por enquanto.
	Ento, quando encontrou suas irms?
	H apenas alguns meses. Aqui em Miracle Harbor. 
Pelo tom da resposta ele percebeu que ela no gostaria de ficar ali. Que havia muitos outros lugares para sua linda vizinha.
Mas ele a estava levando para casa e ponto final.
Bem, iria consertar sua cerca e... Estaria tudo acabado.
	Sinto muito  ele no pde pensar em mais nada para dizer.
Sabia que poucas palavras podiam ser ditas em um caso como este.
Sentira a mesma coisa por ocasio da morte de Marianne.
Ela no disse nada e quando olhou para ela, Corine, disfaradamente, enxugava uma lgrima que teimara em escorrer pela sua face.
	Minha mame tambm morreu  Robbie disse baixinho.
Ela no disse nada, mas passou o brao pelos ombros do menino e o apertou. E seu brao permaneceu nesta posio durante todo o trajeto que levou at a casa dela.
	Eu gosto que vocs sejam trs  afirmou Robbie  E gosto que voc seja a melhor.
Corine olhou para o garoto surpresa e Matt sentiu que seu corao ia explodir dentro do peito. Estava absolutamente visvel no rosto de sua vizinha que ela nunca havia sido considerada a melhor. Nunca.
A dor que havia na alma de Corine era grande demais para apenas um homem poder sanar. Especialmente um homem como ele que estava alimentando sua prpria dor.
Matt queria que ela descesse e desejava afastar-se dela.
Mas quando chegou a casa dela, no conseguiu.
Como ela iria se ajeitar com o brao engessado?
O olhar de Corine dizia que ela morreria tentando, mas mesmo que conseguisse se cuidar, o maldito jumento estaria alm de suas foras.
Alm do mais, Marianne no iria gostar que ele fizesse essa grosseria.
	Voc no precisa me ajudar a entrar  ela disse com frieza.
	No, madame, no preciso, mas vou ajud-la mesmo as sim.
Robbie j estava fora da caminhonete e entrava na casa como se, depois da visita ao banheiro, ele j fosse ntimo.
As caixas que haviam estado na varanda agora estavam na sala, ainda fechadas. Ele notou a cabeceira de uma cama e um colcho encostados na parede do lado de fora do quarto.
	Voc tem um lugar para dormir?
	O sof  suficiente. Obrigada. Eu ia desencaixotar minhas coisas, mas passei muito tempo cuidando do jumento.
	Minha titia pode montar a cama para voc  Robbie anunciou, pegando na mo de Corine e levando-a para o sof.
 Sente-se aqui. Vou buscar uma soda. Minha titia tem na caminhonete.
Matt no conseguiu imaginar um modo delicado de impedir que seu sobrinho o chamasse de titia na frente de uma mulher to bonita. Mesma de uma mulher que o fazia querer fugir o mais rpido possvel.
Deu a impresso que ela ia recusar, mas ela aceitou.
	Obrigada.
	Voc est com fome?  Robbie perguntou.  Eu estou. Eu poderia lhe fazer um sanduche de pasta de amendoim e gelia. Voc tem pasta de amendoim e gelia?
	Foi a nica coisa que eu desencaixotei  ela disse sorrindo levemente.  Minha favorita.
Pronto. Ela conquistara Robbie por toda a vida.
	Primeiro vou buscar a soda.
	Otimo  ela concordou.
Matt podia perceber que cada palavra lhe custava muito. Ser cuidada por esse garotinho roubava-lhe o orgulho e derrubava suas muralhas.
Ele notou que Robbie no havia lhe oferecido nada.
A porta se fechou atrs do garoto.
	Ele  muito inteligente para a idade, no ?  ela comentou, encostando a cabea nas costas do sof, olhando para o teto.
	Infelizmente, ele sabe cuidar de uma pessoa doente mais do que muitos adultos.
	Oh, Matt, que pena...
Subitamente, suas muralhas haviam cado e ele pde ver como ela realmente era. No era uma pessoa dura. Era sensitiva e havia construdo muralhas ao seu redor para que o mundo nunca ficasse sabendo disso.
Mas agora ele sabia. E ocorreu-lhe que essa rachadura na sua armadura era muito mais devastadora para ele do que para ela.
	Vou montar sua cama e ento iremos embora.
Mas a vida no era assim to simples.
Ele montou a cama em dez minutos, pensando como ela iria arrum-la com apenas uma mo. Ento comeou vagarosamente a abrir caixas at encontrar alguns lenis.
No eram lenis bonitos. Apenas limpos e brancos. Os cobertores tambm no eram bonitos. Eram cinzas, como os que se usava no Exrcito.
Sentiu-se mal por ela no ter coisas bonitas. Talvez fosse porque, quando a nturalha cara, alguns minutos atrs, ele a vira como uma mulher que deveria ter coisas bonitas.
Depois de arrumar a cama, Matt saiu e encontrou Robbie e Corine comendo sanduches de pasta de amendoim e gelia e bebendo soda.
Robbie o convidou para se juntar a eles.
Quando se sentou sobre uma caixa de ma, percebeu o cavalete perto da janela e uma tela sobre ele. Era uma pintura muito simples, o rosto encantador de uma garota. A simplicidade e a emoo que a pintura transmitia era notvel e ele teve uma forte sensao de reconhecer aquele rosto.
Continuou a comer o sanduche enquanto Robbie fazia uma lista de possveis nomes para o jumento.
	Fred, Harvey, Cabea de Amendoim...
O ltimo fez Corine sorrir.
	Cabea de Amendoim?
	Voc no acha que a cabea dele parece um grande e velho amendoim?  Robbie perguntou.
	Manteiga  Robbie continuou.
Matt riu.
	Perfeito, Ele  um jumento to delicado e adorvel!
Robbie franziu as sobrancelhas, mas Corine riu.
E, como antes, isso fez Matt querer faz-la rir mais. Pensou em uma srie de nomes ridculos, mas resistiu  tentao de diz-los, at que viu sombras nos olhos dela.
Levantou-se e perguntou ao sobrinho:
	Voc fez baguna na cozinha, Robbie?
	No...  Robbie mentiu.
Matt percebeu e foi at a cozinha para arrumar a baguna que Robbie fizera.
Ouviu a voz do sobrinho durante algum tempo at que cessou.
Ao chegar  sala, os dois estavam adormecidos no sof, os ombros encostados.
Matt os observou durante alguns segundos.
Robbie no confiava com facilidade nas pessoas, especialmente depois da morte de sua me. O que tinha a vizinha de to irresistvel?
Descobriu que gostava de observ-la sem que ela notasse. Isso permitia que a estudasse mais abertamente.
Dormindo, ela parecia to inocente quanto seu sobrinho. A preocupao sumira do seu rosto e ela era to bonita e serena como um anjo. Poderia ser adorvel sem aquele olhar hostil e desconfiado.
Matt suspirou, pegou o sobrinho no colo e olhou para ela. Suspirou novamente, pegou um cobertor e o estendeu sobre ela.
Gostaria de pensar que estava indo para sempre.
Mas sabia que voltaria.
A desculpa seria o dever. Ajud-la com o maldito jumento. Ou talvez carregar coisas pesadas para ela.
Mas a verdade era mais problemtica.
Sentia-se atado a ela por uma corda invisvel, de um modo que ele no entendia, como se ela o atrasse da mesma maneira que atraa seu sobrinho.
Corine acordou sentindo-se embriagada, a boca seca e grossa. Moveu-se e gemeu de dor.
Viu que estava coberta por um cobertor e isso a aborreceu. Pegara no sono com Matt na casa dela. Devia ser consequncia dos medicamentos que tomara, pois no se permitia ser to vulnervel.
E, se tivesse que confiar em algum, ela admitiu, Matt Do-nahue seria a ltima escolha no mundo.
Ficou com dor na conscincia por ter sido carregada por ele no dia anterior e feliz por estar sozinha para ningum ver que tinha ruborizado.
Ele acharia engraado saber que ela nunca ficara to perto de um homem?
To perto que pde sentir seu cheiro, forte e misterioso penetrar nos seus sentidos?
To perto que pde sentir a rigidez dos seus msculos atravs do tecido da sua camisa com tanta intensidade como se ele estivesse despido?
To perto que pde sentir o arfar do seu peito e ouvir o firme ritmo do seu corao?
Matt Donahue transmitia fora. Era o tipo de homem em quem as pessoas confiavam. Seu senso de honra fora de moda era evidente, mesmo antes de ele abrir a boca.
Fazia muito tempo que Corine no confiava em algum a no ser nela mesma. Com exceo de suas irms. Confiara nelas instantaneamente.
Isso fora um erro, ela via agora, uma vez que tinham sado rapidamente do hospital deixando-a nas mos do vizinho.
	Devastadoramente atraente  Brit declarara.
Corine sabia que no podia confiar em Brit no que se referia a homens. O primeiro presente que ganhara da irm fora um livro chamado Como Encontrar seu Par Perfeito.
E isso fora antes de ela encontrar seu eleito. Agora que encontrara seu par perfeito, Brit se entusiasmara tanto que queria que acontecesse o mesmo com todos, principalmente com sua irm solteira.
	A sra. Pondergrove est fazendo outro vestido de noiva  ela informara a Corine enigmaticamente, como se estivesse lendo em uma bola de cristal.
	Mas voc disse que ela est fora  Corine protestara.
	E est. Ela mandou os moldes para Abby de algum lugar de Wyoming. Pobre Jordan. Ele est nervoso por no saber onde ela est.
Jordan era o novo sogro de Brit. De acordo com Brit, que era a gmea experiente em assuntos romnticos, ele estava cado por Angela Pondergrove.
Corine teria que ser cega para no ter visto os olhares romnticos e sugestivos de Brit depois de ver Matt Donahue no hospital.
	E o garotnho  adorvel  ela sussurrara, para logo depois perguntar assustada:  Matt no  casado, ? No pode ser!
Corine arregalara os olhos para ela enquanto o mdico engessava sua mo e brao.
	Sim, ele  casado  respondera, esperando pr fim na conversa.
Mas Brit no desistia com tanta facilidade. Depois de olhar para a irm durante alguns segundos anunciou que ia perguntar a ele.
Mortificada pela ideia de ele ficar sabendo que elas haviam discutido sobre o estado civil dele, Corine cedeu:
	Est bem, est bem. Ele no  casado. Robbie  sobrinho dele. A me de Robbie morreu.
Abby pareceu entender a tristeza que esse momento merecia, mas Brit ficou quieta apenas por um segundo, antes de, alegremente, continuar o interrogatrio a respeito do vizinho. De como eles haviam se conhecido, a chegada do jumento e o presente dos cus, de acordo com Brit, por a cerca estar caindo.
Corme-percebeu a tendncia casamenteira de Brit quando ela olhou o relgio e subitamente disse que ela e Abby tinham um compromisso e que Matt teria que levar Corine de volta para casa.
A atitude de Brit era entusiasmada e convincente.
Mas o desejo de unir Matt e Corine apenas serviu para que Corine desejasse manter distncia dele.
Fazia muito tempo que no confiava em ningum.
Sentiu um aperto no corao.
Corine fechou os olhos e relembrou aqueles momentos antes de irem ao hospital, depois do acidente. Matt to prximo dela quando a ps no banco da caminhonete, to perto que sentiu o peito forte dele de encontro aos seus seios, to perto que ele poderia ter tocado seus lbios por acidente.
Seus sentidos ainda no tinham se recuperado daquela proximidade e acontecera um fato ainda mais terrvel: Robbie lhe sussurrara nos ouvidos:
	Estava esperando por voc. Rezei para que voc viesse.
Ficara to atordoada que a dor do dedo desaparecera.
Como ele poderia ter esperado por ela? E rezado para que ela viesse?
Como poderia dizer ao garoto que jamais poderia ter sido ela que ele esperara e orara para que viesse? Como poderia dizer ao garoto que ela no era quem ele pensava que fosse?
E depois, ele dissera resolutamente, que ela era a melhor das irms.
Como poderia suportar essas coisas?
No queria que o garoto confiasse nela e no podia negar o calor que sentia quando pensava nele.
	O que est acontecendo na minha vida?  ela perguntou, olhando para o teto.  Primeiro um jumento machucado e agora um garotinho. No posso amar nenhum dos dois.
Corine sentiu-se imediatamente tola. Com quem estava falando? E quem pedira para ela amar o menino e o jumento? Seu corao estava congelado.
O engraado era que, quando ela pensava na palavra amor, no era nem o jumento e nem o menino que lhe vinham  mente.
Era nos olhos calmos e castanhos de Matt Donahue que ela pensava.
E, em algum lugar dentro dela, o gelo parecia estar derretendo.
Jogou o cobertor longe e levantou-se um pouco .tonta pelo efeito dos remdios. Foi at a cozinha e revistou as caixas com um s brao.
Achou uma lata de feijo e depois de uma luta terrvel que lhe mostrou como estava indefesa, conseguiu abrir a lata.
Comeu o feijo frio.
A independncia no era to boa como ela imaginara.

CAPITULO V

O telefone tocou e Corine atendeu. Estava esperando que fosse ele? Que pattica!
	Estou interrompendo alguma coisa?  Brit perguntou.
	Sim, um jantar  luz de velas para dois  foi a resposta de Corine.
 Estou emocionada. Vou desligar agora mesmo. O que voc est servindo?
	Feijo enlatado para mim. Cenouras e feno para ele.
	Oh, Corine. Eu esperava que Matt estivesse a.
	Bem, ele no est, mas o jumento  um bom substituto.
	Corine, estou percebendo algo estranho em sua voz. Est brava comigo?
	Sim.
	Mas, por qu?
	Me mandou para casa com ele quando eu precisava de voc.
	Quero apenas que ele seja a sua metade.
	No acredito nisso.
	Bem, Abby tambm no acreditava e olhe o que aconteceu com ela!
	No sou igual a Abby. E no sou como voc. No vai haver um final feliz para mim.
	Haver se eu tiver alguma influncia nisso.
	Voc no ter.
	Est bem. Voc quer algumas rosquinhas com gelia da minha padaria e companhia? Abby e eu vamos at a ajud-la a desencaixotar suas coisas.
Corine cometera o erro de confessar s irms que ainda no havia colocado suas coisas em ordem. Agora aprendia essa lio: poderia ser rude e arredia, mas suas irms no desistiriam dela.
No parecia nem intimid-las.
	Posso fazer isso sozinha.
	 claro que pode, querida  Brit disse com meiguice.  E pode cavalgar um camelo pelo deserto e enfrentar crocodilos tambm. Mas isso no significa que tenha de fazer. Alm disso, Abby j aprontou suas cortinas.
Corine ficou surpresa por Abby ter feito suas cortinas to rapidamente. Ningum nunca havia tido esse tipo de gentileza com ela.
Alm das cortinas, Abby levou um prato, coberto com papel de alumnio, contendo rosbife, pur de batata e legumes.
	Feijo enlatado...  ela desaprovou ao ver a lata pela metade sobre a mesa.
E Brit levara comida chinesa.
	No consegui imagin-la sentada no meio de todas essas caixas comendo feijo enlatado. Que deprimente!
Era bvio que Brit no tinha noo do significado da palavra "deprimente".
As irms de Corine trabalharam febrilmente e em pouco tempo tudo estava arrumado. As cortinas amarelas estavam penduradas, o que deu alegria  casa. Puseram uma toalha combinando sobre a mesa e uma cortina para fechar a passagem para o quarto. Corine andava atrs delas tentando ajudar, mas a maior parte do tempo ficava no caminho.
E suas irms nenhuma vez lhe disseram que ela estava atrapalhando ou que sasse do caminho. Em vez disso, brincavam com ela e se admiravam de como ela tinha poucos pertences e vibraram com as caixas que continham os desenhos e as pinturas de Corine.
Finalmente, Brit fez ch.
Corine sentia como se sempre as tivesse conhecido. Sabia que, para o resto da vida, se lembraria das trs ali esparramadas, tomando ch e rindo. Abby e Brit riam, ela sorria com indulgncia, aquecendo-se no calor que emanava delas.
	Ento, Abby, conte tudo sobre este novo vestido de noiva  Brit disse, fingindo no se importar por Corine escutar.
	Bem, como voc sabe, Angela Pondergrove nos deu os vestidos de noiva que eu costurei para ns. E agora, encomendou um terceiro vestido.
	E para voc, Corie!  Brit gritou com alegria.
	Eu nunca usarei um vestido de noiva  Corine respondeu com um erguer de ombros.  Decidi que no me casarei. No enquanto isso for uma condio para eu herdar esse lugar.
	O qu?  Brit perguntou.
	No  como se eu estivesse planejando me casar. Mas no serei coagida a faz-lo. Nunca.
	Mas eu no me sinto coagida  disse Abby.
	Nem eu  acrescentou Brit.
	Bem, eu me sinto  Corine disse com firmeza.
	Oh!  Brit exclamou mal-humorada.  Ento no adianta pedir a Abby que nos conte como  o vestido?
	No.
	No  exatamente um vestido  Abby comentou.   maravilhoso, mas  um terninho branco de seda, com um lindo  top e cala larga, tipo pantalona.
	Voc usaria um terninho?  Brit perguntou a Corine.
Corine olhou para a irm e no disse nada. E Brit jogou uma almofada nela.
	Alm de Angela ter mandado o modelo, ningum ouviu alguma coisa sobre ela?  perguntou Brit.  Mitch disse que o pai vai ter um ataque se no souber alguma coisa dela logo. No  romntico? Naquela idade!
	Espero que tudo esteja bem  Abby disse preocupada. Ela no disse quase nada no bilhete que mandou com o modelo. Shane ainda est tentando encontr-la. Ele acha que ela foi para Minepolis e disse que quando souber de alguma coisa importante nos avisar.
	Aposto que eu conseguiria saber mais do que ele...
	E ele disse para dizer a voc, Brit, para no aborrecer.
	Aborrecer...  Brit resmungou.
Abby riu alto, mas Corine no. Por que Angela teria ido para Minepolis? Corine era a nica das trs irms que era de l. Teria Angela ido l para descobrir alguma coisa sobre ela?
Depois de todos os lares adotivos tinha havido tambm um incidente com a lei. No fora grave, mas suficiente para assustar Corine e faz-la enfrentar diferentes escolhas.
Mas como suas irms reagiriam se soubessem daquilo? E o seu vizinho, como reagiria?
Quando Brit olhou para o relgio e avisou que tinha de ir embora, Corine ficou triste. No queria ficar sozinha com seus pensamentos.
Abby demorou-se um pouco mais, mas por fim tambm se despediu.
	Odeio ter que ir  ela disse.  Corie, adoro estar com voc...
Corine sentiu o lbio superior tremer. Ningum havia lhe dito nada daquele tipo antes. Abby ps o brao ao redor dos ombros da irm e a abraou.
	Sabe de uma coisa? Vou amar voc at que voc se ame.
Na manh seguinte, Corine encontrou caf ainda quente e uma rosquinha em uma caixa, no degrau da porta da frente. No podia acreditar que tivessem sido deixados l sem que ela tivesse percebido. O copo de papel, com o rtulo de Heavenly Treats, indicava que o caf era da padaria de Brit.
Isso mudou todo o tom do dia.
No dia seguinte, aconteceu novamente.
E no outro tambm.
Corine ligou para 5rit  noite para lhe dizer que parasse de gastar combustvel.
	Voc vem todos os dias e nem pra para dizer um al?
	No sei do que voc est falando  Brit respondeu, genuinamente surpresa. Caf? Rosquinha? Talvez tenha sido Abby.
Mas ao falar com Abby, foi informada de que tambm no fora ela.
Ento Corine soube quem fora. E ficou sem flego.
	Esse tipo de coisa no acontece comigo  ela comentou.
	Posso lhe pedir para fazer uma pequena experincia? Por mim?  Abby perguntou.
A verdade era que, se sua irm lhe pedisse para pular de cima de um telhado com um pra-quedas feito em casa, ela teria concordado.
Corine escutou.
	A experincia  a seguinte: apenas por um dia, quero que acredite que coisas boas podem acontecer com voc.
	Isso  tolice.
		Pode ser. Mas, por favor, far isso por mim?  apenas por um dia.
Corine sorriu relutantemente.
	Est bem. Mas s porque voc est pedindo. Que dia?
	Oh, pode ser amanh.
Depois de falar com a irm, sua pequena casa pareceu subitamente vazia, mesmo com a moblia agora no lugar, as caixas vazias e as cortinas e quadros pendurados.
Ps um suter sobre os ombros e saiu para a noite, em di-reo ao celeiro.
Matt Donahue tinha deixado o caf e as rosquinhas. Dirigira para a cidade todos os dias por ela.
O jumento ergueu a cabea quando ela entrou e parecia esperanoso. Sabia que a afeio do animal por ela estava relacionada ao feno com que ela o alimentava, mas no se importou.
	Oi...  ela disse.
Bem, no era companhia como suas irms, mas, ao menos, podia falar o que quisesse, e com Brit a histria era outra.
	Eu nunca poderia usar um daqueles vestidos de noiva  ela disse e riu nervosamente como se tivesse admitido que, mesmo sem usar o vestido, ela esperava que alguma coisa acontecesse, como acontecera com suas irms.
Secretamente, abrigava os mesmos sonhos que qualquer pessoa.
Mas ningum precisava saber disso..
	Especialmente Brittany  ela disse ao jumento.  Ela decidiu arrumar um marido para mim.
O jumento parou de comer e olhou para ela, mastigando complacentemente.
	Quem precisa de um marido?  ela perguntou.  Eu j tenho um jumento.  Ela riu nervosamente da prpria piada.  Sabe, devido ao modo como fui criada, tenho medo de algumas coisas: relacionamentos, compromissos e... talvez dos homens.
O jumento fez um barulho.
	Exceto voc,  claro. Eu no cresci em uma famlia regular e tenho medo de no saber cuidar de uma. Apenas aprendi a cuidar de mim mesma e de mais ningum.
Ocorreu-lhe que o jumento poderia no ser um mau professor. Ela estava aprendendo a cuidar de outro ser. Quem poderia saber que o que Corine Parsons necessitava era aprender a cuidar e amar outras coisas?
O jumento caminhou lentamente at onde ela estava.
	Se um dia eu me casar, entretanto, acho que poderia vestir um terninho branco de seda. O que voc acha?
O jumento mexeu a cabea parecendo concordar.
	Sabe que aparando suas sobrancelhas e recebendo uma boa escovada voc seria um animal bonito?
O jumento mexeu as orelhas.
Corine estendeu a mo e ele encostou a testa nela. Por um momento ela gelou, mas ento cuidadosamente acariciou-o.
O jumento pareceu contente.
Corine abaixou a mo abruptamente. Deus, o que estava fazendo? Conversando com um jumento. Isso era pattico. Imagine se algum soubesse.
Depois de se certificar que o animal tinha gua e feno na manjedoura ela saiu do celeiro, decidida a no dizer boa-noite.
Mas disse. E um estranho rudo saiu da garganta do jumento.
Dentro de sua pequena casa ela contemplou sua nova vida. Tinha irms e um misterioso jumento.
E Matt Donahue.
E a experincia tie Abby.
Apenas por um dia... Acredite que coisas boas podem acontecer com voc.
Vestindo o pijama, Corine sentiu uma pequena emoo, um pressentimento que nunca experimentara antes. No quis pensar muito a respeito, temendo que ele se desvanecesse como fumaa se fosse analisado.
Mas, sentiu-se estranhamente feliz por estar exatamente onde estava.
Acordou na manh seguinte com o som de marteladas. Abriu os olhos, olhou para o relgio e os fechou novamente. Qual era sua obrigao? Ir v-lo? Ajud-lo? Queria fazer as duas coisas.
Mas no queria demonstrar. Continuou deitada e cobriu a cabea com o lenol.
Hoje era o dia em que boas coisas podiam acontecer.
Tomou conscincia de que no estava sozinha. No tinha certeza como sabia, mas havia a presena de outra pessoa no quarto.
Ela espiou sob o cobertor.
Robbie estava esperando ansiosamente.
	Bom dia. Titia recomendou que eu no a acordasse e que fosse apenas ver o jumento.
	H um jumento no meu quarto?  ela se descobriu e olhou ao redor do quarto.
Robbie riu, aproximou-se e saltou sobre a cama.
	Titia trouxe caf e rosquinhas. Posso pegar?
Ela teve que fechar os olhos diante do prazer to intenso que quase provocava dor. As pessoas se preocupavam com ela. Matt Donahue se preocupava com ela. Com ela!
Nunca recebera alguma coisa de algum e agora coisas chegavam a ela sem parar.
Talvez a sorte mudasse.
Talvez coisas boas pudessem acontecer.
Assim... De repente.
Talvez voc tenha esgotado sua cota de m sorte por uma vida inteira, e todo o resto dela ser bom, sugeriu uma voz interior.
	Posso trazer?  Robbie tornou a perguntar.
	No. Voc vai dizer bom-dia ao jumento e eu vou me vestir e levarei meu caf ao celeiro.
	Eu dei uma mordidinha na sua rosquinha  Robbie confessou.  S para experimentar. Eu comi uma, mas era de sabor diferente. No conte  titia. Ele dir que  falta de educao.
	Seu segredo estar a salvo comigo.
Quando a cortina do quarto se fechou atrs do visitante, ela foi at o guarda-roupa e abriu a porta. O que tinha alm de jeans?
Nada.
Bem, tinha o terninho que usara uma vez quando fora se encontrar com seu editor.
Vermelho e lustroso, no era uma roupa adequada para tomar caf no celeiro com um jumento.
Mesmo assim, vestiu a tnica sem mangas e as enfiou por dentro do seu jeans mais novo. Depois de um longo tempo no banheiro tentando ajeitar o cabelo de vrias maneiras ela o deixou solto.
Parecia muito jovem e esperanosa, ela admitiu.
Esta era uma manh diferente. Um brilho apareceu nos seus olhos. Esperana. Esperava que Abby soubesse o que estava fazendo.
Corine saiu e a luz do dia parecia deslumbrante. Seu caf, ainda quente, estava em um copo de plstico com uma tampa, na varanda. Ao lado, uma rosquinha de chocolate com duas pequenas mordidas.
Rosquinhas no caf da manh!
Ela decidiu que poderia ser o tipo de garota que comia rosquinhas em vez de cereais no caf da manh.
Foi at o celeiro. Robbie estava parado no porto da baia com a mo estendida.
O jumento se aproximou do garoto e abaixou a cabea para ser acariciado, deixando Robbie alisar suas sobrancelhas, exa-tamente como ela fizera na noite passada.
Ela no se moveu at o momento passar.
O jumento voltou ao seu feno e Robbie se virou e olhou para ela, sorrindo.
	Contei a ele todos os meus segredos  ele anunciou.
Corine sorriu.
	Eu tambm.
	Eu no sabia que adultos tinham segredos.
	Alguns por toda- uma vida.
	Vamos procurar titia.
	Certo.
Matt estava estendido na grama e tinha tirado a camisa. Ele era um homem muito bonito, seus msculos brilhavam sob a luz do sol.
Como artista, Corine tinha que admirar aquela cena.
Como mulher, se admirava de como passara toda a vida sem ter aquela sensao.
Desejo.
Subitamente sentiu tontura, como se tivesse corrido uma longa distncia.
Ele escolheu esse momento para se virar e olhar para ela.
Corra, ela disse a si mesma. Fuja e no olhe para trs.
Mas alguma coisa a prendia ao cho.
Outra parte dela dizia: Experimente. D a voc mesma este dia. No pense, no analise. No olhe para o passado. E nem para o futuro. Apenas aproveite a glria deste momento. Experimente.
Ela deu um passo para frente e depois mais um.
Robbie passou correndo e seu tio o pegou e o rodou no ar. O garoto ria muito.
Ele ps Robbie no cho e ela chegou mais perto.
	Ei  Matt disse.  Pensei em um nome para o jumento.
	Qual?
	Burrito.
Corine riu. Nem sabia de onde tinha vindo aquela risada, mas a verdade  que rira, e gostara do som.
	Obrigada por ter me trazido caf e rosquinhas.
Ele inclinou a cabea. Cus, ela ficara tmida de repente?
	No h de qu.
	E ento, tem algum servio para mim?
	No sei. Voc poderia fazer alguma coisa complicada?
	Duvido.
	Pode segurar os pregos.
Ela revrou os olhos. Mas segurou os pregos e viu Robbie perseguir borboletas e correr pelo pasto.
E observou Matt, pregando a cerca com facilidade. Sua pele estava molhada de suor e ela podia sentir seu cheiro inebriante. Como chegara quela idade sem conhecer o cheiro de um homem? E sem saber que esse cheiro podia embriagar uma mulher?
O modo como seus msculos se moviam, a fora dos pulsos e do peito, a largura dos ombros, a curva do pescoo, todas essas coisas podiam fazer uma mulher fraquejar. Podia faz-la acreditar que coisas boas podiam realmente acontecer.
	Peguei... Est com voc  Robbie gritou, dando um tapa na perna dela e correndo.
Matt se virou e sorriu para ela e aquele sorriso disse que tudo estava certo: correr, ser livre, rir.
Ela tocou no ombro dele e teve vontade de no afastar mais a mo.
	Est com voc.
E saiu correndo, rindo, enquanto Matt punha o martelo no cho para correr atrs dela.
Corine correu pela grama, rindo at chegar perto de Robbie.
	Est com Matt  ela disse ao garoto.
	Oh, no... Ele  muito veloz.
Ela olhou por sobre os ombros. Oh, que cena bonita!
O homem correndo pelo gramado, todo o poder emanando das suas pernas, dos seus braos, a luz iluminando seu rosto. Matt pegou Robbie.
	Novas regras  ele avisou.  Todos de quatro, apenas uma perna erguida.
	Mas eu s tenho um brao disponvel  ela protestou.
Matt comeou a correr numa velocidade incrvel.
Corine pegou Robbie.
	Voc no pode pegar quem j pegou voc!  disse afirmou.
	Vocs, Donahue, fazem as regras como desejam? Isso no vale.
Saiu atrs de Matt, Robbie gritando para encoraj-la.
Ele a estava provocando. Diminua a velocidade e quando ela chegava perto corria mais depressa ou mudava de direo com tanta rapidez que ela quase caa tentando alcan-lo.
Subitamente, ele parou, e Corine trombou com ele. Matt virou-se e cruzou os braos.
	Voc me pegou. O que far comigo?
Era um convite. Ela sabia. O olhar dele era srio.
Apenas por um dia, iria acreditar que coisas boas podiam acontecer. E fez o que nunca teria feito em outro dia: ficou na ponta dos ps e bei/ou-lhe o rosto.
Matt ficou surpreso, riu da coragem dela e correu. Mas no muito longe. Parou, pegou-a pela cintura e a rodou como fazia com Robbie.
	No se pode pegar quem o pegou  ela o informou.
	No tenho inteno de pegar voc  ele disse, abaixou a cabea e beijou-lhe os lbios.
Ele tinha gosto de fora e de ternura. Foi um pequeno beijo, mais de brincadeira, mas ela se afastou de olhos arregalados.
	Eu quase no o conheo.
	Eu sei. Podemos mudar isso.
	Ei...  Robbie disse se aproximando.  No tem graa se eu no posso brincar.
	No sei se deveramos  Corine murmurou.
	Eu tambm no sei.
	Acho que vou voltar para casa.
	Acho que voc deveria almoar comigo e com Robbie.
	No Walt?  Robbie perguntou animado, ignorando completamente o que estava acontecendo.
Corine sabia que no deveria aceitar. Era completamente insano. Estava procurando problemas. Mas era apenas por um dia!
	Eles fazem hambrgueres?
	Os melhores  Robbie respondeu, pegando-lhe pela mo.
	Ento aceito.
Corin sentiu-se to feliz que ficou com medo de chorar.
Ele a beijara, pensou Matt. Tivera esse desejo desde a primeira vez que a vira.
Mas hoje ela estava diferente.
Seus cabelos estavam soltos e a faziam parecer mais jovem e mais livre.
Quando ele lhe dissera o nome do jumento, ela rira.
Teria ele conseguido a confiana dela, trazendo-lhe caf? Uma coisa to simples.
Por que tinha o pressentimento de que ela nunca recebera nem mesmo um pequeno presente?
Matt a observava disfaradamente e por fim, percebeu o que havia mudado: a muralha nos olhos dela tinha desaparecido. Ela no parecia com medo e nem hostil essa manh. Teriam sido os analgsicos que tomara no hospital?
No. No podia ser, seus olhos estavam atentos e seus movimentos naturais.
Ela teria feito alguma coisa com seus lbios? Verificou se usava batom e decidiu que tambm no era isso.
Notava que ela olhava para ele e parecia gostar.
Quando tocara seu ombro na brincadeira do pega-pega, ele sabia melhor do que ela do que estavam brincando.
Estavam brincando com fogo.
Correr atrs dela, v-la mover-se como uma danarina, leve e gil, tinha deixado Matt ofegante.
Mas fora a luz no rosto de Corine que fez seu corao crescer dentro do peito. O brilho do seu rosto, como se ela nunca tivesse brincado antes.
Era essa a diferena. Ela tinha luz prpria como o sol e as outras estrelas.
	No precisamos sair para almoar  ela disse.  Posso cozinhar.
	No  Robbie interveio.  Vamos ao Walt. Corie come feijo enlatado, eu vi na mesa esta manh.
	Nem sempre  ela disse, corando.
	Acho que vamos ao Walt.
	Est bem, vamos. Adoro hambrgueres.
	Eu tambm  Robbie completou.
Na caminhonete, ela sentou ao lado de Matt e seus ombros se tocaram.
	Sabe...  ela disse.  Nunca fiz isso. Brincar de pega-pega.
	Nunca?
Ele sabia que ela precisava dizer o motivo, mas no deveria perguntar. Ela lhe diria quando estivesse pronta.
	No. Nunca.
Ela nada mais acrescentou e seu olhar perdeu-se na distncia. Matt no queria que a alegria que vira nos seus olhos desaparecesse.
	Estamos prontos para votar em um nome para o jumento?  ele perguntou, animado.
Ele e Robbie disseram vrios nomes, mas ela no sugeriu nenhum.	;
De repente, Matt apertou a mo dela por um momento.
Corine fitou-o como se ele tivesse lido sua mente.
O almoo foi timo. Ela comia como homem. Dois Waltburgueres e um milkshake de chocolate. E riu bastante.
Matt no queria ir embora, mas tinha sua propriedade para cuidar. Quando lhe perguntou se ela gostaria de conhecer sua casa, percebeu que havia feito presso. No era o momento.
Ele terminou a cerca na tarde seguinte.
Desejou v-la todo o tempo em que esteve trabalhando, mas ela no saiu de casa. Ele a via atravs da janela, observando-o quando achava que ele no estava olhando.
Depois de terminar o trabalho, guardou as ferramentas na caminhonete e foi bater a sua porta.
A muralha tinha voltado a encobrir os olhos dela, mas no to alta como antes. Talvez um pequeno empurro e ela casse novamente. Era isso que ele queria?
	Pensei que voc gostaria de solt-lo  ele disse.
Corine quis recusar, ele percebeu. Talvez quisesse demonstrar que no estava interessada. Mas, no final, no pde esconder como queria ser ela a soltar o jumento.
Um momento depois, com uma grande cerimnia, com Rob-bie gritando alegremente, ela destrancou a baia onde o jumento estava.
Ele andou com cautela na direo da sada do celeiro.
	Oh...  ela disse.  Como ele est feliz!
Matt mal podia afastar os olhos do rosto feliz de Corine, mas finalmente olhou para o jumento libertado e no viu felicidade no olhar astuto do animal.
O jumento ergueu a cabea, cheirou o ar e correu.
	Ele  bonito!  Corine exclamou.
Matt no tinha certeza seja vira um animal mais feio e no gostou da atitude do jumento. Um animal em pasto novo geralmente era cauteloso. Checava a redondeza, caminhava, parava, cheirava o ar e experimentava a grama.
Aquele jumento desembestara como se tivesse uma misso a cumprir. E no parecia que iria parar ao chegar  cerca.
E foi exatamente o que aconteceu. Continuou a correr e arrebentou a cerca.
	Ele deveria estar nas olimpadas  Robbie observou feliz.
	Meu jumento!  Corine exclamou.
	Minhas guas  Matt disse com gravidade.
A vida lhe fugira do controle novamente. E ele tinha o estranho pressentimento de que poderia se acostumar s curvas que a vida lhe punha no caminho. Deu uma olhada para Corine. Seriam aquelas algumas das curvas?
O que um homem deveria fazer? Render-se ou lutar?
Dependeria para onde olhasse. Se olhasse para os olhos de Corine Parsons se renderia. Se olhasse para a poeira que o jumento deixara para trs, lutaria.
E, com esse pensamento, virou-se e foi para a caminhonete.

CAPTULO VI

Robbie rapidamente adormeceu no sof de Corine. Ela o cobriu com um cobertor e notou que ele estava com o polegar na boca.
Isso a lembrou como ele era pequeno e vulnervel. E como era frgil a confiana que depositava nela. Uma confiana que fora demonstrada inquestionavelmente com a afirmao que ele lhe fizera na caminhonete:
Estava esperando por voc. Rezei para que voc viesse.
Corine no podia acreditar que algum rezaria para que ela viesse, mas desde que Matt Donahue passara a fazer parte da sua vida, ela sentia-se diferente, como se estivesse se transformando, talvez se tornando um tipo de pessoa com quem algum poderia gostar de partilhar a vida.
Mas, se nem ela sabia como era realmente, como poderia saber uma criana de cinco anos de idade?
E Matt Donahue... O que pensaria a seu respeito?
No o vira mais desde que o jumento derrubara a cerca, horas atrs. J passava das dez horas e isso a fazia concluir que o jumento ainda estava solto.
O telefone tocou e Corine teve esperana de que fosse ele. Mas era Abby.
O que significava o desapontamento que sentiu ao constatar que no era Matt? Um pouco antes ela ficaria tremendamente feliz em ouvir o calor da voz da irm.
	E a, voc fez a experincia?  Abby perguntou.
	Fiz.
	E?
	O dia foi muito bom.
Corine se lembrou de tudo que fizera: o conserto da cerca na parte da manh, a brincadeira de pega-pega, o almoo delicioso.
Fora tudo to maravilhoso que ela estava assustada. Precisava pensar mais a respeito. Tinha que pensar sobre como era vulnervel, pois parecia que Matt Donahue esperava dela mais do que ela poderia dar.
Mas, mesmo tentando manter o controle dos acontecimentos, ela falhara. E agora, l estava o garotinho dormindo no seu sof.
Parecia uma situao to normal, to saudvel. Uma oportunidade de observar como era a vida de outras pessoas.
Corine pensou no beijo da tarde anterior. Os lbios de Matt roando nos dela. Bem, seria forado classific-lo como saudvel, mas fora limpo e fresco. No fora um beijo perigoso, mas suas emoes haviam corrido soltas pela primeira vez em sua vida.
	E ento?  Abby continuou.  No quer tentar repetir a experincia mais um dia?
	Oh, acho que minha sorte mudou para pior  Corine respondeu, como se isso no tivesse a mnima importncia.  Meu jumento derrubou a cerca e Matt est procurando por ele. Se o animal encontrar as guas de Matt, creio que estarei em apuros.
Abby respondeu com gentileza:
	Corine, s vezes coisas que parecem ms so na realidade boas. Se voc acreditar que coisas boas podem acontecer.
Abby era uma otimista. O lar onde havia crescido podia no ter sido perfeito, mas fora um lar. Ficara evidente no casamento de Abby que ela era adorada por Judy, sua me adotiva.
Sim, Judy a controlara, mas apenas por desejar coisas boas para ela.
	Abby,  um pouco tarde para transformar-me em Cinderela.
	Acho que voc est enganada.
O que voc sabe? Voc no esteve l, ela teve vontade de dizer  irm.
Mas conteve as palavras e at isso provou que ela havia mudado. Em outra ocasio teria respondido com rudeza.
Corine riu quando Abby comeou a cantarolar a msica da Cinderela.
O ato de rir lhe pareceu mais fcil, como se o riso tivesse estado trancado dentro dela e agora se libertara decidido a permanecer livre.
	Prometa-me  Abby insistiu.  Mais um dia. O que significa um dia?
	Est bem, est bem. Mais um dia.
Corine sentiu que fazia a promessa mais pela irm do que por ela mesma.
	Diga.
Corine respirou fundo.
	Por mais um dia eu acreditarei que coisas boas podem acontecer.
	Com quem?
	Comigo.
	Isso... Boa menina. Eu te amo.
Eu te amo.
Trs pequenas palavras. Menos de dez letras que podiam mudar o mundo. O mundo dela. Um mundo onde essas palavras nunca haviam sido ditas.
Mas, pelo menos, ela sabia do valor dessas palavras. Sabia que no podiam ser ignoradas ou ditas a esmo. As pessoas pareciam diz-las o tempo todo como se no significassem quase nada, como se no siubessem que eram palavras sagradas.
Depois de desligar o telefone, Corine sentou-se no sof sentindo as palavras queimando dentro do seu peito e olhando para seu pequeno hspede que dormia chupando o dedo.
Acabou adormecendo.
Acordou com o barulho do motor de uma caminhonete na frente da casa. Levantou-se rapidamente, sentindo-se confusa e desorientada. Passou a mo pelos cabelos, alisou a camisa e passou a manga pelos lbios.
Matt bateu na porta de leve, e embora quisesse ir at o banheiro escovar os dentes, trocar de roupa e se arrumar, correu para abrir a porta.
Ao ver Matt a sua frente sentiu como se estivesse ainda adormecida e sonhando. Ele usava uma jaqueta jeans desbotada. Os cabelos escuros apareciam sob o chapu reclinado na cabea e as faces estavam avermelhadas devido ao vento.
	Acordei voc  ele disse suavemente.
Matt estendeu a mo enluvada como se fosse acariciar o rosto dela, mas desistiu no meio do caminho.
Desculpe, no queria que voc pensasse que me esqueci de Robbie.
	Eu sei que voc no se esqueceu dele.-Por que pensou uma coisa dessas?
	Voc obviamente no conhece a sra. Beatle  ele observou sorrindo.
Parecia muito cansado e abatido, com olheiras fundas. Os ombros estavam cados, mas mesmo assim era o homem mais sensual que ela j vira.
	Eu deveria ter telefonado, mas no havia um telefone por perto.
Corine percebeu que continuava parada na frente dele e afastou-se para lhe dar passagem.
	E o jumento?  ela perguntou fechando a porta.
Na claridade, notou o rosto dele sujo de terra, o rasgo na manga da jaqueta e a aba do chapu e a gola da jaqueta com manchas de suor.
	Eu o lacei, mas ele me arrastou e me fez bater em uma rvore. E tornou a escapar.
	Matt, sinto muito.
Ele deu de ombros.
	Vou comer alguma coisa em casa e em seguida vou procur-lo novamente. Vim me certificar "se voc est bem e se pode ficar com Robbie mais um pouco. Como no encontrei o jumento terei que mudar minhas guas de lugar.
	Essa noite? No escuro? Uma tempestade parece estar se aproximando.
Ela olhou para o relgio. Quase meia-noite.
	Mas isso tem que ser feito. Algumas esto no cio.
Ele disse isso surpreso, como se no pudesse acreditar que ela no soubesse que isso era muito importante e devia ser feito, mesmo que fosse tarde da noite e que o vento soprasse forte balanando as janelas da sua pequena casa.
Mas Corine sabia que toda a histria de Matt era sobre fora e sobre homens rudes que, simplesmente e sem reclamar, faziam o que tinha de ser feito, se estivesse quente, frio ou desconfortvel. Ele era o tipo de homem que enfrentava qualquer situao. No passava pela mente dele desistir e nem aceitar derrota.
Homens como Matt podiam ser contados nos dedos. Faziam o que tinha que ser feito sem vacilar.
	Dizem que se deve ter cuidado para pr nome nos animais  ele disse sorrindo.
	De que modo?
	Bem, dizem que os animais se identificam com o nome.
	Mas o meu jumento no tem nome.
	Isso  bom porque tenho certeza que eu nunca iria cham-lo de Dom Quixote.
Por um segundo ela ficou confusa. Ento riu.
	Acho que voc est querendo dizer dom Juan  ela disse gaguejando.
Na realidade Corine gaguejara como uma adolescente comprando o primeiro suti. Matt tambm sorriu.
	Acho que voc tem razo.
Corine nunca estivera na frente de um homem to forte e to seguro de si, que no se importava em admitir que estava errado.
	Venha sentar-se. Eu posso preparar alguma coisa para voc comer.
Corine se admirou de ter feito tal convite. No era prprio dela.
Mas ela nunca acreditara antes que coisas boas pudessem acontecer.
	No me castigue. No consigo comer feijo enlatado, nem se minha vida depender disso.
Ele sorriu novamente e Corine sentiu o corao saltar dentro do seu peito.
Covinhas no rosto deveriam ser ilegais nos homens. Ou, pelo menos, em homens bonitos como ele.
Matt tirou a jaqueta, olhou ao redor e a pendurou em um prego atrs da porta. Tirou o chapu, que tambm pendurou. Era como se estivesse chegando em casa e o corao de Corine tornou a querer saltar.
Orando para que ele no percebesse sua emoo, ela disse:
	Sei fazer outras coisas. Que tal uma sopa e um sanduche quente de queijo?
	Perfeito  ele passou por ela, olhou para Robbie e por um momento as linhas do seu rosto se suavizaram. Ento olhou novamente para Corine.  Voc se importa se eu me lavar?
 No, pode ir.
Corine ouviu o som de gua corrente e ele assobiando.
Som prprio de homens.
A ideia dele se lavando no seu banheiro a deixou excitada. Na sua solido, como mulher solteira, isso era normal. Era a nica explicao.
Se ela fechasse os olhos poderia v-lo. Apostava que ele tirara a camisa e estava encostado na pia molhando os braos, o rosto e a nuca.
Quando Matt saiu do banheiro parecia que tinha enfiado toda a cabea embaixo da torneira. Seus cabelos estavam molhados e encaracolados, gotas de gua escorriam pelo pescoo, entrando por dentro da camisa. Ele devia ter tirado a camisa porque ela no estava abotoada por completo, como se ele tivesse se vestido depressa demais para notar.
Os olhos de Corine viajaram do pescoo dele at o peito coberto de plos. Teve uma sbita vontade de se achegar a ele e pr a mo por dentro de sua camisa. Tocar seu cabelo, sua pele e seus msculos peitorais. Engoliu em seco e corou, chocada com o rumo dos seus pensamentos.
Estava chocada e tambm assustada.
Ele a observava com ateno sem dar mostras de timidez ou embarao.
Corine desviou o olhar primeiro, sentindo-se tola. Obviamente, ele era um homem acostumado a ser admirado pelas mulheres. Afastou-se e comeou febrilmente a procurar panelas e a abrir latas de mantimentos.
A simples tarefa de abrir uma lata sob o olhar dele pareceu mais difcil do que correr em uma maratona.
Um desejo proibido dominou seu corpo e a fez ficar desajeitada at para passar manteiga no po. Seu desejo no era apenas tocar nele, sentir seus lbios sobre os dela, embora certamente, isso seria uma parte deliciosa.
Havia uma parte mais profunda, mais escondida. E essa parte tinha pouco a ver com desejo fsico. Era um desejo desconhecido, acabado de nascer.
Um homem entrando em sua casa todas as noites, pendurando o casaco e o chapu atrs da porta, enfiando a cabea embaixo da torneira e olhando para ela demorada e preguiosamente.
E, se pudesse haver algo de sagrado nos olhos dele, isso era tudo que ela pediria.
Corine sentiu-se como se estivesse fazendo uma lista para o Papai Noel.
E por favor, por favor, por favor, se eu puder ter isso, no pedirei mais nada.
Mas tinha que se lembrar de uma coisa: suas cartas ao Papai Noel nunca haviam sido respondidas. Nunca vira um desejo seu tornar-se realidade.
Mas se lembrou que Abby no acreditava nisso.
E ela fizera uma promessa  irm.
	Um dlar por seus pensamentos  ele disse.
	Eu estava pensando no Papai Noel  ela respondeu, para logo em seguida se arrepender.
Cus... Papai Noel! O que ele iria pensar dela?
Ela virou o sanduche. Quase queimado.
Ficara to entretida em observar e sentir o cheiro de Matt que se esquecera de prestar ateno no que estava fazendo.
Talvez devesse dizer a Abby que era mais fcil manter uma conversao quando se podia usar o sarcasmo.
	Verdade?  ele parecia fascinado.  No  um pouco cedo para fazer a lista de presentes?
	Depende do que se quer pedir.
Ela ps o sanduche no prato e fez um sinal para que ele se sentasse.
A sopa estava fervendo.
	O que voc est pedindo?
	Que o meu jumento retorne so e salvo,  claro.
Corine sabia que deveria fazer outro sanduche, mas no
conseguiu. Provavelmente poria fogo na casa se no se afastasse do fogo. Sentou-se na cadeira oposta a Matt, ajeitou as flores do campo no jarro do centro da mesa e tentou demonstrar que olhar para ele no lhe interessava nem mesmo remotamente.
	Tudo que quero no Natal  meu jumento de volta  ele cantarolou enquanto mastigava o sanduche. Sua voz era grave, masculina e bonita.  Mas  s isso que voc quer no Natal?
No gostaria, por exemplo, de um anel?
Corine desejou verdadeiramente que ele no tivesse perguntado isso. Porque esse era o desejo que ela tentava esconder at de si mesma.
Sim, ela queria. Queria um anel e um vestido branco. E cercas e bebs. Queria o que toda garota no mundo queria. Um homem que a amasse. Tudo que se tornara realidade para suas irms. As duas haviam lhe dito que ela poderia esperar milagres em Miracle Harbor. Mas no tinha acreditado nelas.
Morria de medo de acreditar.
Mas, talvez, fosse bom acreditar. Apenas por mais um dia.
Matt tinha gostado quando Corine abrira a porta para ele com os cabelos desgrenhados, os olhos ainda tontos de sono. No tinha muita experincia nesse campo, mas apostava que era raro uma mulher acordar no meio da noite assim to bonita.
Sabia que deveria estar se sentindo furioso por causa daquele jumento que quebrara a cerca e desaparecera no meio da noite fria.
Mas ao entrar no calor da casa de Corine, sentira-se to bem e aquecido como se tivesse tomado um copo de conhaque quente. O calor comeara no ventre e vagarosa e languidamente se espalhara por todo o seu corpo.
Seria o calor da casa que o fazia sentir-se assim to jovem e to estranhamente contente?
Ou seriam as toalhas limpas e cheirosas que usara no banheiro ou o jarro de flores no centro da mesa? Ou as cortinas alegres combinando com a toalha?
Coisas de mulher, que um homem no sabia estar perdendo at deparar com elas. Como um santurio em uma noite difcil.
Ou talvez fosse o olhar de Corine quando ele sara do banheiro.
Tinha certeza de que no fora o sanduche quente que lhe proporcionara aquele calor, um tipo de calor que o homem deve sentir quando volta para casa depois de um dia de trabalho e o fogo est aceso e uma mulher vem at ele prometendo um tipo de calor diferente nos olhos.
No. Queijo derretido e po no fariam isso.
De alguma forma, a imperfeio do sanduche era cativante. Fora feito para ele com a maior boa vontade e com apenas um brao disponvel.
Fora feito para ele.
Fazia muito tempo que ningum fazia nada para ele. Tanto tempo que ele nem se lembrava.
Pareceu a Matt, que ele e Corine haviam caminhado uma longa distncia em pouco tempo.
Ambos feridos demais, sofridos demais pelas tempestades da vida.
Mas ali estavam eles.
Matt sentia-se fraco, cansado e com frio. E ainda com fome.
Corine nada sabia a respeito de alimentar um homem. Ele teria comido uma dzia daqueles franzinos sanduches, chamuscados ou no. E precisava de caf, de um caf forte e no daquele ch que tinha o mesmo aroma das flores que enfeitavam o centro da mesa.
Por alguma razo, o fato de ela nada saber a respeito de como alimentar um homem faminto e cansado lhe agradou, ao mesmo tempo que desagradou. Significava que beij-la de novo poderia ser um negcio muito srio.
Seria muito mais do que algo macio onde repousar a cabea e o corpo dolorido.
Por um momento, imaginou segur-la pelos pulsos, afast-la do fogo, p-la sentada sobre suas pernas e beijar-lhe os lbios. Era o tipo de tormento que precisava evitar, considerando a noite que teria pela frente.
Levantou-se to rapidamente que derrubou a mesa.
O prato vazio caiu no cho e as flores do jarro se espalharam. O jarro partiu-se em dois e a gua se misturou ao ch, formando uma poa no cho.
Matt praguejou, desculpando-se em seguida.
Alguma coisa nos olhos de Corine lhe disse que ela j havia escutado coisas bem piores.
Ento, ambos se agacharam para pegar os cacos e as flores, molhando os joelhos e aproximando as cabeas.
Corine sentou-se sobre os tornozelos e ele tambm.
Matt fitou-a. Os cabelos estavam em desalinho e os olhos pareciam mais escuros. O rosto estava ruborizado e ela mordia o lbio inferior como para impedir que tremessem.
Tremessem... de desejo? Por ele?
Matt sentiu-se percorrido por uma onda de calor. Parecia estar pegando fogo. Ia acontecer de novo... Seria o destino lhe pregando peas novamente?
Mas no soubera disso desde o incio? Que o destino a trouxera para ser sua vizinha e perturbar a sua vidinha pacata? No sabia que aquele beijinho de brincadeira nunca seria suficiente? Que o atormentaria at ele ceder e beij-la novamente? Que seus dias e suas noites seriam assombrados por ela?
Corine estava encostada nele, suas curvas delineadas pela camisa, o peito arfando e os olhos quase fechados  espera...
 espera dele.
Matt se aproximou mais, quase tocando seus lbios, quase...
	Quem quebrou alguma coisa?
Eles se afastaram rapidamente.
Corine ficou de p e enxugou as mos nos jeans, ruborizando de novo.
	Fui eu  Matt disse levantando-se lentamente, sem afastar os olhos dela, como a pedir que ela tambm continuasse a olhar para ele.
Mas Corine olhava para Robbie, sonolento, observando os dois. Depois olhou para os ps e para as unhas, e finalmente, para a baguna no cho.
Isso fez Matt pensar o que significaria beij-la novamente. Era muito perigoso.
	Voc achou o meu jumento?
Meu jumento!
Cus! Mais essa? Robbie se sentia proprietrio do jumento!
	Ainda no. Vou voltar a procurar. No entre aqui. Poder cortar os ps.
Volte a dormir. No v que interrompeu alguma coisa?, foi o que Matt teve vontade de dizer ao sobrinho.
	Posso ficar aqui esta noite? Gosto daqui.
Ento Robbie sentia o mesmo que ele. Aqueles pequenos toques de mulher. As toalhas limpas e as flores. Marianne fora muito boa nisso. Provavelmente Robbie sentia falta de tudo isso ainda mais do que ele, que sara da casa dos pais havia muito tempo.
Tempos atrs ficara noivo de uma jovem da alta sociedade de Portland. Ela tinha bom gosto e sofisticao por ambos. Tambm gostava de flores; o apartamento dela sempre tinha rosas brancas flutuando em tigelas de vidro. E no banheiro, toalhas brancas e felpudas, que sempre o impeliam a enxugar as mos na cala jeans.
Mas sua noiva lhe dera as costas sem nem olhar para trs quando Marianne adoecera, e ficara claro que a doena dela no seria rpida e romntica como no filme Love Story.
Agora ele percebia como fora ingnuo, da parte de ambos, imaginar que aquele relacionamento poderia dar certo. Ela tinha a aparncia de uma mulher de classe, mas na realidade no tinha classe alguma. A verdadeira classe era ter fora espiritual.
E, sem sombra de dvida, Corine possua essa fora.
Ocorreu-lhe ento que todo o luxo da decorao do apartamento de sua ex-noiva no lhe agradara tanto quanto a simplicidade da pequena casa de Corine: a cortina e toalha amarelas, o simples jarro de flores do campo e o assoalho rstico de madeira.
	Eu cuido disso  Corine declarou.  Voc pode ir.
Teria ela a conscincia de que estavam muito prximos de uma zona de perigo?
	Certo. Obrigado... pelo jantar.
Ele foi at Robbie, abraou-o com fora, deitou-o e cobriu-o com o cobertor. Acariciou o sobrinho e sussurrou:
	Durma bem. Virei busc-lo de manh.
	Pode me trazer rosquinhas para o caf da manh?  Robbie pediu.
	Oh, eu posso preparar o caf da manh, Robbie.
Matt sabia que rosquinhas no faziam parte do caf da manh, mas teve at medo de imaginar o que Corine Parsons poderia fazer com um simples ovo.
	Eu trarei o caf da manh  ele afirmou, beijando delicadamente o rosto do sobrinho.
O menino podia fazer um homem acreditar em milagres sem nem ao menos tentar.
Matt pegou o chapu e a jaqueta e sentiu dificuldade em aboto-la. Recusava-se a olhar para Corine, mas de nada adiantou. Podia senti-la mesmo sem olhar.
Lutando entre a necessidade de ir e a de tom-la em seus braos e fazer o que ambos queriam, deixou de abotoar os dois ltimos botes e ps o chapu.
O calor que sentia era tanto que foi at bom sair para o vento frio.
Chegando em casa, selou um cavalo, montou e mergulhou na escurido da noite.
Cavalgar nessas condies, agrupar suas guas e seus potros nos estbulos perto do celeiro no exigia muita ateno o que era muito bom no estado confuso em que se encontrava.
Poderia dormir mais cedo se a cerca fosse mais alta, mas no havia nada que pudesse fazer. Teria que dormir de ouvidos atentos. Estava acostumado a dormir assim, preparado para levantar se uma gua tivesse dificuldade para parir.
Satisfeito por ter feito tudo que era possvel, levou o cavalo selado para o celeiro. A parte superior da porta do celeiro estava aberta e batia contra a parede devido ao vento forte. Na sua preocupao ele devia ter esquecido de passar o trinco.
Abriu a porta, fez o cavalo entrar e acendeu a luz. Havia duas baias abertas e ele levou o cavalo para a mais prxima, tirou a rdea e trocou-a pelo cabresto.
Na outra extremidade do celeiro, pde escutar Cupie Doll se movendo.
Outro barulho na outra extremidade do celeiro. Um barulho estranho.
Parou o que estava fazendo para escutar melhor.
Nada.
Apoiou a sela nos quadris e tirou o cobertor com a outra mo.
Ouviu o barulho novamente.
No era Cupie Doll. Ela no gemia assim. A no ser que estivesse morrendo.
Largou tudo e foi verificar o que era.
Ficou estarrecido.
Era inacreditvel, mas Cupie Doll estava placidamente de p na baia, mastigando, contente. E, comprimido atrs dela, Matt viu uma orelha cinza e longa. E ento a outra orelha.
O jumento espiava com cautela.
Matt deu um passo para trs, sem acreditar no que estava vendo. Para estar ali, o jumento precisaria ter aberto a parte de cima da porta do celeiro e pulado.
Mesmo sabendo que isso seria impossvel, no havia como negar que o jumento conseguira entrar. E a gua parecia muito feliz.
Uma hora mais tarde teve que separ-los. E no tinha sido uma tarefa fcil, pois nenhum dos animais quis cooperar. Agora, o jumento estava trancado em outra baia que tinha grades de ferro at o teto. Parecia uma jaula e Matt esperava mesmo que fosse.
Finalmente, pde descansar o corpo extenuado.
Ouviu o som dos dois animais chamando um ao outro a noite toda. O jumento passando o casco na madeira e a gua emitindo sons estridentes e desesperados, furiosa por um simples homem achar que podia contrariar a natureza.
No quis pensar no que isso poderia significar em relao a Corine Parsons, pois a atrao entre os dois estava se tornando poderosa e muito forte.
Talvez um homem estivesse enganado achando que podia controlar certas foras. Seria como mandar que as ondas no chegassem  praia, que as mars cessassem.
Pensamentos cansativos, ele pensou irritado.E claro que tinha condies de controlar o que aconteceria entre ele e sua bela vizinha.
Totalmente. Cem por cento.
Imaginou os lbios dela e a noite lhe pareceu longa demais.
O jumento parecia estar cantando sua cano. Uma cano de saudade, de deseje, de luxria.
Cupie Doll respondia do mesmo modo.
 Matt Donahue  ele disse em voz alta , voc perdeu a razo.
Ps o travesseiro sobre a cabea e ordenou a si mesmo que dormisse. Percebeu que no tinha tanto auto controle como pensava ter, pois o sono se recusou a chegar.

CAPITULO VII

Corine acordou com uma sensao estranha. Uma sensao de leveza, como se estivesse flutuando. Era como se o brilho do sol que penetrava pela janela do quarto estivesse iluminando sua alma. Olhou para o relgio. Seis e meia da manh.
Poderia puxar a coberta sobre a cabea e voltar a dormir. Em vez disso, sentiu uma nsia, quase uma urgncia, de levantar-se e dar boas-vindas ao dia.
Levantou-se e andou na ponta dos ps para olhar Robbie, que ressonava suavemente no sof. Pegou o cobertor que havia cado no cho e cobriu o garoto at o queixo.
Em seguida foi at a porta, abriu-a e saiu para a varanda.
As tbuas da varanda eram speras e frias sob seus ps descalos. O canto dos pssaros era exuberante e o sol fazia brilhar as gotas de orvalho que soltavam fascas azuis, verdes e amarelas.
Corine respirou profundamente e se abraou.
 Hoje  ela disse em voz alta, abrindo os braos.  Eu acredito que apenas coisas boas podem acontecer. Com quem? Comigo!
Riu e percebendo que seus ps estavam gelados, entrou para calar os tnis. Em seguida sentou-se no degrau da varanda e respirou fundo.
Ouviu o som da caminhonete se aproximando e se debateu entre entrar para fazer-se mais apresentvel ou ficar onde estava. Decidiu ficar. Ela era quem era. Ficou olhando enquanto a caminhonete percorria a alameda de entrada. Seu corao parecia um passarinho, voando e entoando canes de glria.
Uma outra Corine teria lembrado com horror que estava usando uma camisola longe de ser sensual, de flanela bege com bolinhas amarelas, mangas compridas, longa at os ps e abotoada at o pescoo. Nenhuma renda, nenhum lao de fita. Devia ter sido desenhada por algum que acreditava que o pecado da carne devia ser evitado.
Por que a tinha comprado? Bem, para mant-la aquecida. Nunca lhe ocorrera que algum, a no ser o jornaleiro, a veria naqueles trajes.
No estava usando roupa de baixo e isso era a coisa mais indecente que fizera nos seus vinte e sete anos de vida.
Mas no se importava.
A nova Corine planejava ser extravagante e livre, em harmonia com a vida que pulsava dentro dela e que lhe dizia para se arriscar, ter esperana e acreditar.
Percebeu, depois de desistir de enxerg-lo atravs do pra-brisa que refletia a luz do sol, que ele tinha um trailer de transportar cavalo, atrs da caminhonete.
Matt parou e desceu da caminhonete com movimentos fludos e msculos, olhou para ela e congelou.
Corine no tirava os olhos dele, observando como a luz da manh suavizava sei$s traos e danava ao seu redor.
Nesta manh ele usava uma camisa jeans, chapu branco e jeans escuro e justo.
Limpo, alto, uma composio que poderia servir de modelo para qualquer artista e que tirava a respirao de qualquer mulher.
	Trouxe seu jumento  Matt disse finalmente, depois de um silncio que parecia que nunca mais iria terminar.
	Estou vendo.
Ele deu um passo para trs, como se fosse ter problemas se no afastasse os olhos dela.
Finalmente, puxou o chapu em direo aos olhos e virou-se abruptamente, indo para a traseira da caminhonete.
Corine o seguiu, olhando para os msculos dos braos dele quando ele abriu o trinco do trailer.
	Foi difcil coloc-lo a dentro?  ela perguntou.
O jumento parecia estar cochilando, as orelhas erguidas e uma perna levantada.
	Ahn... No.
	Aquele homem horroroso que o trouxe disse que tinha levado trs horas.
	... Bem...
Matt puxou o jumento para fora do trailer, esticando um dos braos para que ela no ficasse no caminho.
O jumento saiu devagar, calmo, e ento parou, olhando para os dois. Depois de um segundo bocejou e balanou a cabea.
Corine franziu as sobrancelhas.
	Este no  o meu jumento.
	Quantos jumentos voc acha que estavam soltos a noite passada?
	Ele est diferente.
	Sim... Bem...
	E est se comportando de modo diferente tambm.
Ela esticou a mo devagar e tocou no jumento, que pareceu ficar muito satisfeito.
	Sim... Bem...
	Por que voc s fala isso?
	Porque no  educado dizer a voc o que melhorou o temperamento do animal.
Ela olhou para Matt e mordeu o lbio. Oh, Deus! Ele provavelmente a mataria se ela risse e ela se mataria se corasse. Mas sentiu que o sangue subia para o seu rosto.
	Voc deveria estar embaraada. Seu jumento  repugnante.
	Eu o levarei para o celeiro  ela disse pegando a corda e dando as costas a ele antes que a visse ruborizar.
Ou antes que ele notasse que ela no ficara propriamente espantada com o repugnante jumento.
	No vou ter nenhum problema com ele, vou?
Matt resmungou.
	Oh, no, ele est dcil esta manh. Est esgotado...
Dessa vez foi ele que ruborizou.
	De tanto relinchar a noite toda em protesto por ter sido preso  ele completou.
	Voc acha que...
	Oh, sim... Ele praticou uma m ao. E apenas uma questo de tempo para eu me certificar qual a extenso do estrago.
	Sinto muito.
	Para algum que sente muito, voc parece alegre demais.
Escapou-lhe uma risadinha antes dela responder:
	Isso no significa que eu no sinta.
Um relutante sorriso teimava em aparecer nos lbios de Matt,
	Oh... Est bem. Vai guardar este jumento no celeiro enquanto eu fao o caf da manh.
A antiga Corine diria alguma coisa e no teria deixado as coisas chegarem a esse ponto de franqueza entre os dois. Ele apertou os olhos e abaixou a aba do chapu.
	E... Srta. Parsons?
	Sim, sr. Donahue?
	Quando o sol atravessa uma camisola, um homem fica muito receptivo para aceitar desculpas.
Ela assustou-se e tentou esconder-se atrs do jumento, mas como no funcionou, pegou um torro de terra e jogou nele.
Matt se afastou rindo, pegou uma sacola da cabine da caminhonete e, assobiando, subiu os degraus da varanda, pulando o que estava quebrado sem nem olhar.
Com o rosto pegando fogo, Corine levou o jumento para o celeiro e o ps na baia. Ela permaneceu ali at que sua cor voltasse ao normal.
Entrou na casa em .silncio para no ser vista por Matt, que estava de costas na beira do fogo, mas ele olhou para ela por sobre os ombros e piscou.
Ela passou por ele rapidamente em direo do quarto. Ao fechar a cortina ouviu a risada dele. A cortina parecia uma barreira tnue demais entre os dois. Ele poderia ouvi-la se vestindo? Ele iria imagin-la sem roupa?
Teve novamente que esperar o rubor desaparecer do seu rosto antes de aparecer, os cabelos penteados para trs, a blusa abotoada at o ltimo boto, nenhum vestgio da mulher ousada que o recebera com uma camisola transparente.
Sua casa cheirava divinamente. Na realidade era o cheiro de um lar. Ela adorava o cheiro de bacon e caf.
	Voc no gosta do modo como eu cozinho?  ela perguntou.
Como ele estava de costas Corine aproveitou para admirar seus ombros largos e as pernas fortes delineadas pelos jeans.
	Resposta honesta e curta: no.
	O sanduche e a sopa no estavam to ruins.
	Mas voc no comeu.
	Eu no estava com fome.
	O seu modo de cozinhar explica por que voc  magra
como uma ripa de cerca.
Magra como uma ripa de cerca.
No era lisonjeiro, mas o olhar que ele lhe lanou parecia mais quente do que o bacon na frigideira. Subitamente, Corine sentiu-se incapaz de encetar uma conversa ftil.
	Matt  ela disse suavemente , voc vai me beijar hoje, no vai?
Ele olhou-a durante um longo momento e virou-se novamente para o fogo. Bateu um ovo e o derramou dentro de uma frigideira quente.
	Bem, madame, acho que sim  ele finalmente respondeu.
	Poderamos acabar com isso agora?  ela sussurrou.
	Acabar com isso? Que modo estranho de lidar com isso...
	Eu sei, mas me sinto como um vidro prestes a se quebrar. Estou muito tensa.
Ele no se virou para olhar para ela.
	Voc nunca foi beijada?
	No como voc beija.
Matt se virou para olhar para ela e, por um momento, ela enrijeceu achando que via piedade no olhar dele. Mas Matt sorriu e ela viu carinho e bondade.
	Agora no  ele disse.
Corine teve vontade de correr e se esconder na baia, junto com seu jumento.
	Olhe, essas coisas no devem ser precipitadas. Tem que haver um preparo antes  ele acrescentou.
	Oh...
	E no pode haver ningum por perto, muito menos uma criana, percebendo tudo e fazendo comentrios.
	Oh...
	Portanto, acho que devemos tomar o caf da manh, levaremos Robbie para a creche e ento passaremos o dia juntos.
	Oh...
	Voc precisa melhorar seu vocabulrio. H vinte e cinco letras no alfabeto e voc s diz uma.
	Ahn?
	Como gosta dos ovos?  ele perguntou rindo.  No... Deixe-me adivinhar.
Olhou para ela como se estivesse tentando descobrir.
	Mole  ele arriscou.
	Como sabe?
	Porque  o nico modo que eu sei fazer.
	Sorte minha.
	Ento  ele disse pondo um prato na frente dela.  O que gostaria de fazer hoje?
	No sei  ela murmurou.
	O que acha de fazer alguma coisa que nunca tenha feito antes? Ser o dia das primeiras coisas.
	Cavalgar, no. Eu ficaria aterrorizada.
	Est bem. Para mim, cavalgar  trabalho e no distrao. Poderia ser alguma coisa que eu tambm nunca tenha feito.
Bem, isso exclui sexo, ela pensou atrevidamente. E sugeriu:
	Eu nunca nadei no mar.
	Eu no uso short.
	O qu?
	Pernas brancas. Passo muito tempo de jeans.
Corine caiu na risada.
	Ento vamos andar de kart.
	J fiz isso dzias de vezes.
	Oh... Ento pipas. Na praia. Parece sempre ter algum empinando pipa em Miracle Harbor.
Abby lhe tinha dito que um dos momentos mais romnticos com Shane tivera ligao com praia e uma pipa.
	Perfeito, mas no conte a ele  Matt disse, apontando para tobbie que se aproximava deles sonolentamente.  Seno ele no vai querer ir  creche.
	Bem, talvez possamos incluir...
	No  ele disse com tanta firmeza, que lhe provocou calafrios na espinha.
	Meu jumento voltou?  Robbie perguntou.
	Sim.
	Eu sabia que voc o encontraria, titia. Que dia  hoje?
	Quinta feira.
	Posso ir  creche hoje? Nicky sempre vai s quintas.
	Claro...  Ele ergueti as sobrancelhas para Corine.  Se voc insiste.
Agora estava feito, pensou Matt. Que coisa de louco. Que estupidez.
Bem, estava quase sem dormir. No poderia ser responsabilizado.
	Vou lavar a loua. Voc  um timo cozinheiro.
	Sei fritar ovo e fazer caf. Sou muito bom no caf  ele olhou para o sof.  J que voc vai lavar a loua, importa-se se eu me deitar um pouco no sof?
	Fique  vontade. Se preferir, pode se deitar na minha cama.
	No sof estar timo.
Cus! No na cama dela. Ele nem tinha se acostumado com a ideia do que estava para acontecer nesse dia. Era melhor deixar a cama dela fora do assunto.
Deitou-se no sof, ouvindo o canto dos passarinhos e a conversa entre Corine e Robbie.
Um prato quebrou.
Era o destino. Sempre quebravam coisas perto dela.
A distncia, ouviu o jumento relinchar, mas naquele momento no pareceu incomod-lo tanto quanto na noite anterior.
Fechou os olhos e comeou a refletir que ele s se aproximava de um cavalo selvagem quando estava certo de que tinha alguma segurana.
Pensou em Corine nesses termos. Ela era como um animal selvagem. Cheia de medo.
Deus, era uma mulher de quem devia se afastar. Por outro lado, talvez tivesse sido Deus que a colocara no seu caminho. E, talvez, Ele tivesse suas razes.
Talvez tudo na vida, mesmos as coisas mais difceis, fizessem parte de um plano maior. Com essa reflexo filosfica, Matt conseguiu o que no conseguira a noite passada: dormir.
Acordou em meio de um silncio profundo e com uma sensao de estar no lugar errado. Ergueu-se e no conseguiu ligar a hora ao brilho do sol. E caiu do sof.
Levantou-se, limpou-se e olhou para o relgio sobre o fogo. Eram onze horas da manh.
	Corie?
	Estou aqui fora.
Foi at a porta da frente. Ela tinha armado o cavalete e estava desenhando. Seu brao estava fora da tipia.
	Voc acha que devia estar fazendo isso?  ele perguntou olhando para o quadro.
Parecia ser o mesmo rosto que vira no primeiro dia. Um rosto adorvel, vivo e forte. Por que ele o reconhecia?
	Oh, por que no? Estou desenhando e no lutando com o jumento.
	O que fez com meu sobrinho?
	Eu o levei para a creche. Ele me explicou onde era.
	Desculpe. Eu lhe prometi um dia especial e acabei dormindo. Pssima performance para um homem que pretende... 
Que pretende propiciar um dia de se fazer coisas pela primeira vez.
	Est tudo bem. Voc dormir aqui, tambm  uma primeira vez.
	Como?
	Ter voc dormindo no meu sof.  a primeira vez.
	 emocionante tambm?
	Eu gostei.
	Gostou?
	Sim, foi muito bom ter voc aqui em casa, relaxado e confortvel no sof.
	Ningum lhe falou antes que voc  pouco exigente em um encontro?	
	Nunca tive um encontro  ela disse suavemente.
	O qu? Ora, vamos.
Ela devia estar brincando.
	Tenho medo das pessoas, Matt. E parece que afasto as que desejo que gostem de mim.
	Isso quer dizer que voc no gosta de mim?
Matt sentiu um aperto na garganta ao ver a expresso aflita dos olhos dela. Ela era muito vulnervel. Corine sorriu timidamente.
	No. Talvez isso signifique que no tenho mais tanto medo. No de voc.
Matt teve vontade de perguntar quem pusera tanto medo no seu corao, mas achou que quando estivesse pronta ela falaria. E quando ela falasse iria ter muito significado.
Significaria que a confiana que ela depositava nele era completa.
Uma semana atrs, se Corine tivesse demonstrado confiana nele, ele fugiria dela.
Mas agora ele no era a mesma pessoa. Ele mudara e fora por causa dela.
De repente, pensou em coisas maiores. Poderia t-la conhecido antes, talvez tivesse evitado tanto sofrimento.
Sentia que j a conhecia, que sempre a conhecera. Sentia-se muito confortvel na presena dela, como se sempre tivessem estado juntos.
Sentia que via sua alma gmea refletida no olhar dela.
	No vou fazer nada que assuste voc, Corine.
Ela sorriu.
	Tudo me assusta. Por isso preciso parecer to dura.
	Voc no parece dura para mim.
	Eu sei.  porque voc parece ver alguma coisa em mim que ningum viu antes.
	S no viu quem estava cego.
Matt viu os olhos de Corine ficaram marejados de lgrimas e entendeu que no devia pression-la.
	Alm do mais  ele disse , voc no tem medo de pipas.
Ela sorriu.
	 verdade.
Mas ambos sabiam que no falavam sobre pipas e sim sobre onde esses sentimentos os iriam conduzir.
Falavam sobre confiana, partilha, doao.
Falavam sobre dizer sim  vida, coisa que ele parara de fazer depois da morte da sua irm.
Mas no conscientemente. No se revoltara contra Deus e nem dissera que estava desistindo de viver.
Mas era o que havia feito.
Parara de dizer sim  vida. E Corine... Nunca havia dito.
De repente, Matt soube o porqu de estar ali. No era para roubar beijos. A vida estava lhe dando uma oportunidade.
A oportunidade de ajudar uma pessoa que tinha medo de viver, a no temer mais a vida.
Olhando para Corine, entendeu que a vida lhe dera uma tarefa.
E isso no o atemorizou.
	Vamos  ele afirmou.  Vamos empinar pipas.
Corine caminhou at ele e ele sorriu. E no parou de sorrir durante um longo tempo.
Matt trabalhara muito toda a sua vida. O trabalho era sua vida.
Lembrava-se de um tempo em que podia brincar. Mesmo no colegial, quando outras crianas se divertiam, ele carregava o manto da responsabilidade. Seu trabalho parecia no ter fim.
E ele nunca ficara ressentido. Como se pode ficar ressentido por uma coisa que nunca se questionou?
Era um servio que precisava ser feito e ele tinha sua parte a cumprir. E ele cumpria.
Marianne era um esprito mais livre. Sara de casa na primeira oportunidade e se juntara a uma comunidade hippie. Vinha para casa falando sobre artesanato, sobre nadar nua e outras coisas que pareciam a ele bizarras e tolas demais.
Mas ele a invejava um pouco. Ela se divertia, sem dvida nenhuma. E ganhava dinheiro tambm, pois seus artesanatos eram obras de arte e as pessoas gostavam muito.
Ento ficara grvida de Robbie. Naquela ocasio, Matt estava muito bem estabelecido. Comprara as terras para os pais, que se aposentaram e vieram para o clima seco do Arizona.
Certo dia, Marianne voltara para casa sem dinheiro nenhum. Nunca dissera o nome do pai de Robbie e a sua aura de brilho desaparecera.	
s vezes, quando olhava para o passado, Matt achava que Marianne comeara a morrer naquele dia.
Subitamente, percebeu que estava contando a Corine toda a histria.
Quando acabou, parou na frente de uma loja que vendia pipas na praia e Corine insistiu em pagar a pipa.
	Mas e se eu escolher a que for mais cara?
	No precisa ficar embaraado.
	Seu eu pagar, no ficarei  ele insistiu.
Corine decidiu e comprou uma pipa enorme.
No era a que ela tinha imaginado. Para ela, pipas eram feitas de papel de embrulho e esta era de papel de seda, tinha a forma de um semicrculo e um rabo colorido.
	Vou precisar de um furaco para fazer esta pipa voar  ele disse.
	No, no vai. Acredito que coisas boas podem acontecer comigo.
Em alguns minutos estavam na praia. Matt vivera na costa do Oregon toda a sua vida e podia contar nos dedos de uma mo as vezes que estivera na praia.
Corine tirou os sapatos e enfiou os dedos na areia.
Matt tirou as botas enquanto ela corria, tentando empinar a pipa.
No havia nem brisa, apenas o ar que ela deslocava quando corria. Ela parecia feliz e flexvel puxando a pipa.
Ele correu para ajud-la e logo que tocou na pipa a brisa comeou a soprar.
De repente a pipa subiu, erguida pelo vento.
Corine corria pela praia, a cala enrolada, o suter amarrado no pescoo, rindo e pulando como uma criana.
Ele lhe passou o barbante e observou-a brincar, o rosto iluminado.
Matt se postou ao lado dela, passou o brao pela sua cintura e correu junto dela, que entusiasmada olhava para a pipa no alto, agitada pelo vento.
Ele nunca se sentira to  vontade com outra pessoa.
Subitamente ele parou, segurou o queixo de Corine e beijou-a. Dessa vez no era brincadeira.
Era uma necessidade.
Corine passou os braos ao redor do pescoo dele, juntou seu corpo ao dele e retribuiu o beijo.
	Ei, sua pipa est fugindo  uma criana gritou para eles.
Matt no se importou, mas Corine riu e correu atrs da pipa. Pareceu demorado demais enrolar aquele barbante, mas, finalmente, ela voltou para perto dele e ps a pipa no cho.
	Onde estvamos?  ela perguntou.
	Bem aqui  ele disse puxando-a para si e beijando-a novamente.

CAPITULO VIII

Corine se abandonou nos braos fortes de Matt e sentiu o calor sensual que emanava do corpo dele.
Podia sentir a rigidez do seu peito musculoso encostado nos seus seios.
Nunca se sentira to completamente feminina e to fraca e delicada comparada com ele. E suas curvas se encaixavam com perfeio no corpo dele.
Apenas toc-lo era suficiente para mexer com ela.
Ento, Matt a bejou novamente, de maneira calma e apaixonada.
Corine correspondeu, saboreando o gosto dele. Matt tinha os lbios firmes, mas ternos, e transmitia todo o desejo que estava sentindo. Parecia a Corine que ela esperara por aquele momento durante toda a sua vida.
O vazio dentro dela foi preenchido, a solido banida, a crena de que coisas boas nunca aconteceriam a ela desaparecera. Tudo se fora com o toque dos lbios daquele homem.
Em algum lugar, dentro dela, havia a conscincia de que estavam em uma praia pblica, agindo como adolescentes. Mas no se importou.
Nunca fizera aquele tipo de coisa quando era adolescente. Perdera essa fase da vida e agora pretendia recuperar o tempo perdido como se estivesse se vingando.
E ocorreu a ela que beijos no seriam suficientes.
Quando, naquela manh, perguntara a Matt se ele ia beij-la, havia sido com uma inocncia de criana. Mas era uma mulher que agora respondia ao convite que havia sugerido. E aqueulher sabia por instinto que beijos como esses no eram o fim. Eram o comeo.
Aqueles beijos que acenderam seu fogo com uma intensidade insuportvel, eram na realidade apenas a primeira chama de uma labareda que ela poderia alimentar.
Corine percebeu, assustada, que queria alimentar aquela hama. No queria apenas os lbios dele e um inocente beijo em unia praia pblica. Queria seguir aquela trilha de fogo, queria sentir o calor da pele dele sob seus dedos e a aspereza da barba dele sob seus lbios.
Queria sentir a dureza do seu peito desnudo contra a suavidade de seu rosto e passar a lngua desde seu peito at a barriga.
Queria que ele a tocasse em lugares onde ela nunca fora tocada e queria sentir os lbios dele em cada milmetro de sua pele.
Obviamente, nada disso poderia ser feito na praia.
Vamos para casa  ela sussurrou.
Matt gentilmente a afastou, observou-a e afastou uma mecha de cabelo que estava sobre o rosto dela.
Voc tem certeza?
Corine meneou a cabea concordando, sentindo a garganta seca, os olhos ardendo de emoo, a pele formigando, o corao acelerado.
Matt se abaixou, beijou-lhe a ponta do nariz, pegou a pipa do cho com uma das mos e passou o brao ao redor dos ombros dela.
Caminharam pela areia e Corine teve quase a mesma sensao de quando conhecera suas irms. Ela e as irms eram trs, formavam uma pequena famlia. 
Com ele, Corine era parte de um casal.
Quantas vezes observara pares romnticos fingindo no estar olhando, a inveja turvando seus olhos.
Eles estavam por toda parte; nas praias durante o vero, nos parques durante o outono.
Casais que s tinham olhos um para o outro.
Casais que nem percebiam que eram observados. s vezes rindo, outras vezes em silncio ou conversando baixinho, a intimidade cantando ao redor deles.
E, sempre conectados de maneira fsica. De mos dadas, se aoraando, enlaando-se pela cintura.
s vezes se beliscavam ou se mordiam, enterravam o pescoo no ombro um do outro ou se afagavam.
Casais conectados pelos fios invisveis do amor.
Corine sempre se sentira excluda dessa intimidade. Sempre fora apenas uma observadora.
Agora fazia parte desse mundo, o mundo dos casais enamorados.
Tinha o brao de Matt sobre seus ombros, ele a puxando contra si, arrastando a pipa e olhando-a nos olhos que deveriam estar refletindo o que ela estava pensando:
Encontrei o que estava procurando, Corine pensou.
De alguma maneira, sem um mapa, sem nem ao menos saber o que estava procurando, ela encontrara.
Os dois pararam e sentaram na areia perto dos sapatos. Ele pegou o tornozelo de Corine e limpou a areia que cobria seus ps. Sua mo era leve e firme e a sensualidade do pequeno gesto foi to intensa que ela teve medo e vontade de puxar o p.
O gesto fora to sensual quanto os beijos.
Matt olhou para ela, sorriu e comeou a fazer pequenos crculos no peito dos seus ps com o polegar, sem afastar os olhos do rosto dela.
Corine puxou o p antes que ficasse embaraada e se pusesse a gemer como um animal no cio.
Corando, vestiu as meias e os tnis sem olhar para os ps dele que estavam afundados na areia.
O desejo tomara conta dela de forma to intensa que ela sentiu que estava em chamas.
Mas nada poderia atemoriz-la e faz-la parar. Haviam chegado a um ponto onde s existia uma opo: a rendio completa.
Corine fechou os olhos, esperando que sua sanidade mental retornasse, mas em vez disso vislumbrou os dois perdidos no meio dos lenis, o corpo de Matt cobrindo o seu.
Ele a ajudou a levantar-se e Corine pde ver urgncia tambm nos olhos dele.
Tinham chegado  caminhonete quando algum a chamou.
Corine!
Ela se virou e viu Brit saindo da padaria, correndo ao encontro deles.
	Telefonei para voc o dia todo  ela disse ofegante.  Onde voc estava?
Corine tentou pensar em uma resposta, mas Brit no esperou.
Angela Pondergrove sofreu um acidente.
Corine a vira nos casamentos das irms. Era uma velhinha doce que dava vestidos de casamento.
Que conhecia a me delas. Que tinha respostas.
	Ns estvamos esperando a volta dela. Lembra-se? Para que pudssemos falar com ela?
Sim, Corine lembrava-se, mas relutava em deixar o lugar que tinha partilhado com Matt para tornar a entrar na rua principal de Miracle Harbor.
	Angela est em Minneapolis e parece estar mal. Pobre Jordan. Mitch est muito preocupado com ele.
Corine finalmente conseguiu prestar ateno e parar de pensar no homem que estava ao seu lado.
	Minneapolis?  ela perguntou.
	Mitch arrumou um vo para esta tarde. E eu no conseguia encontrar voc. Fui  sua casa, seu carro estava l, fiquei chamando...
	Mas por que voc precisava me encontrar? Isto , sinto muito por ela e pelo pai de Mitch, mas o que posso fazer?
	Angela est nos chamando. Ela quer falar a respeito de nossa me.
Brit nem havia percebido que Corine estava acompanhada. Isso era mau sinal.
	O vo parte daqui a uma hora.
Corine sentiu que seu mundo estava desabando. Como sempre o que ela mais queria lhe era tirado.
	No vou ter tempo de ir para casa arrumar a mala.
	E uma sorte voc ter irms gmeas.
De repente, Brit arregalou os olhos como se s nesse momento tivesse percebido que a irm no estava sozinha.
	Oi, Matt.
Ele meneou a cabea, mas sua ateno estava completamen-te voltada para Corine.
	Voc tem que ir  ele afirmou.  Estarei aqui quando voc voltar. Sabe disso  ele completou, falando ao ouvido dela.
Mas ela no sabia.
Sentiu pnico, como se mais uma vez sua vida tivesse ficado fora de controle. Comeara a gostar de um lugar, acreditar, e o tapete era puxado de sob seus ps. Era uma repetio do que lhe acontecera durante toda a vida. Sempre que estava se acostumando com um lar adotivo e com as pessoas era transferida para outro lugar.
Tinha se enganado novamente. Acreditara, esperara, confiara. Por que Angela estava em Minepolis, um lugar que Corine havia deixado para trs?
Mas ela sabia o motivo.
Fora l que a histria havia comeado. Uma mulher morrera e, por algum motivo, as trigmeas tinham sido separadas.
E Angela devia saber o motivo.
Corine tinha que saber mais, pois de algum modo parecia que todo seu futuro estava ligado quele sombrio passado.
Enquanto no soubesse o motivo de ter sido uma criana rejeitada no poderia ter futuro.
Apesar de querer muito acreditar e confiar, tinha que voltar l. E tolamente desejou que ele fosse com ela.
Corine viu serenidade e fora nos olhos de Matt. Queria que ele a acompanhasse, a protegesse, mas no podia pedir. Ele tinha o sobrinho e o rancho para cuidar. E... eles mal se conheciam.
Embora seu corao e sua mente quisessem t-lo conhecido por toda a vida, os fates mostravam exatamente o contrrio.
	Eu cuidarei do seu jumento  ele falou.
Pelo menos isso mudara. Ela nunca tivera nada para deixar para trs e nem que a fizesse voltar.
Olhou para ele, forte, seguro de si, paciente.
 claro que voltaria.
 claro que ele estaria l quando ela voltasse.
O que tornava uma pessoa to confiante de que a vida seria o que havia planejado?
Ele tambm tinha passado por experincias muito duras.
Seria a f que ele mostrava nos olhos calmos?
Matt abaixou-se e beijou-lhe a boca. E um pouco da sua segurana passou para ela. Ele parecia dizer que tudo estava bem e que ela tivesse coragem.
Beij-la na frente de Brit demonstrava certo compromisso.
Ele se afastou e os dois ficaram se olhando durante algum tempo.
	Olhe, voc sabe que eu seria a ltima a querer interromper um momento desse  Brit disse desolada.  Mas temos um avio nos esperando.
Matt deu um passo para trs. E Corine tambm.
Ele beijou a mo que ela erguera para se despedir e esse foi o momento mais terno que Corine j tivera na vida.
Ela abriu a boca para falar e seus olhos ficaram marejados de lgrimas.
Brit a puxou, mas Corine ficou olhando para Matt at ele chegar  caminhonete, guardar a pipa e ligar o motor.
Olhou para ela mais uma vez e se afastou.
Corine no sabia se ele a tinha visto beijar a ponta dos dedos e assoprar toda a sua esperana e sonhos na direo dele.
	Parece que o departamento amoroso est em franco progresso  Brit sussurrou.  Meu Deus, eu poderia fritar rosquinhas no calor que emanava de vocs.
	No quero falar sobre isso  Corine declarou, odiando a dor que viu no belo rosto da irm.
Por que era to fcil para ela ver a beleza da irm e no a sua prpria?
Matt dirigia de volta para casa, chocado com o tremor de suas mos. Desejo reprimido.
Chocado tambm pela sua conduta.
Um homem adulto agindo como um adolescente na praia. Mas no se arrependia. Alis, tinha sim um arrependimento: queria t-la acompanhado.
Queria enfrentar os drages que a assombravam.
Vira aqueles drages assim que Brit lhe dissera que tinham de ir para Minneapolis.
Gostaria de t-la acompanhado.
Mas de que jeito? Tinha responsabilidades: Robbie e o rancho. At o jumento tornara-se responsabilidade dele.
Mas, disse a si mesmo, fora bom ela ter ido. As coisas estavam caminhando depressa demais entre eles.
O universo impusera um limite de velocidade para acalm-los. Ele precisava de tempo para pensar.
Estava muito vulnervel, dormira pouco e estava impressionado com os sentimentos que Corine despertara nele.
Luxria, ele disse a si mesmo.
Mas sabia que no era apenas luxria e, estranhamente, sentiu-se feliz por isso.
Afinal de contas, sabia o que era luxria. Qualquer homem sabia. O que ele experimentava com Corine era mais profundo e mais forte. Talvez fosse amor.
Amor.
Como poderia am-la? Fazia apenas algumas semanas que se conheciam.
Mas isso no significava muita coisa. Fazia anos que conhecia Brbara, e s agora, quando tinha meios de comparar,  que percebera como era tnue o sentimento que o ligara a ela.
E Robbie? Amara Robbie desde o primeiro minuto de sua vida. Profundamente.
Um homem podia passar a vida toda sem saber o verdadeiro significado da palavra amor.
Matt queria ficar com Corine, queria saber tudo a respeito dela, queria agrad-la e proteg-la.
Queria espantar seus medos para sempre.
Queria rir ao lado dela at ficarem velhinhos, beijar-lhe as mos e o corpo todo at ela desfalecer de desejo.
Queria ser o melhor para ela, deixar as inseguranas para trs e descobrir no amor a base que faria a vida dela florescer.
Queria confiar seu corao a ela apenas e queria que ela gerasse seus filhos. Queria deitar a cabea no colo dela e ser embalado quando estivesse cansado. Queria lev-la a lugares onde nunca estivera.
Um homem podia ter mais do que trabalho e responsabili-dades. Mais do que um emprego e mais do que uma casa e uma propriedade. Poderia tornar-se mais do que sonhara um dia, se dissesse sim quando este sentimento lhe batesse  porta. Se dissesse sim em vez de correr para o outro lado.
Matt queria chegar com Corine ao limite e descobrir que nem sabia onde o limite se encontrava.
Tudo aquilo esperava por ele. Partes do esprito e da alma por onde nunca viajara, horizontes que agora abriam as portas para ele. Tinha medo e esperana ao mesmo tempo.
Olhou para o relgio e sorriu.
A srta. Beatle iria ficar brava de novo. Mas estar apaixonado mudava tudo, porque agora sabia o motivo de aquela mulher desagradvel se fixar em pequenas coisas.
Em algum lugar do seu caminho a srta. Beatle dissera no a coisas mais importantes.
Corine imaginou que a sra. Pondergrove estivesse pequena e frgil na cama do hospital. Ficou atrs das irms, com medo de aproximar-se.
Queria ter os mistrios de sua vida solucionados e esperava que dessa vez isso se tornasse realidade.
A sra. Pondergrove abriu os olhos e o brilho que havia neles fez Corine pensar na vida e no na morte.
	Ol, garotas  ela disse.  Foram muito amveis por terem yindo. Que coisa terrvel. No foi como eu havia planejado. Queria contar tudo depois do casamento de Corine,  claro, mas agora tenho urgncia em falar. Sei que os mdicos disseram que eu estou bem, mas no me sinto assim.
Casamento de Corine?
Corine se surpreendeu. Ela no ia casar!
	No diga isso, Angela  disse Jordan Hamilton se aproximando dela e pegando-lhe a mo.  Voc vai ficar boa. Ouviu? 
	Oh, Jordan  ela sorriu.  Somos velhos demais para isso. No acredito ter energia para um romance, mesmo que eu saia daqui.
	Bem, teve energia para dirigir metade do continente um pequeno romance no ser nada para voc.
	Voc no deve me repreender. Especialmente na frente das garotas. Elas vieram para ouvir o que eu tenho para falar, certo, meninas?
Jordan se virou e olhou para as irms. Abby e Corine permaneceram em silncio, mas Brit, obviamente, sempre tinha o que dizer:
	Certo. Eu realmente nunca a perdoei por confessar que conhecia nossa me e desaparecer. Por que desapareceu?
	Oh, querida. Voc tem que me perdoar. Puxem algumas cadeiras. O que eu tenho para contar no  pouco.
	No se canse muito  Jordan alertou-a.
Ele olhou para Abby, que obviamente considerava a mais sensvel e disse:
Se perceberem que ela est cansada...
Prometo  tranqiiilizou-o Abby.
Jordan saiu do quarto, Abby aproximou a cadeira do leito e pegou a mo da enferma. Corine achou o gesto muito bonito e lembrou-se que era o tipo de carinho que ela nunca pudera demonstrar a algum.
	Angela  Abby disse.  Aquele homem est apaixonado por voc. No o magoe.
	Oh, querida, j tenho muita coisa na minha conscincia. No h lugar para mais nada.
	Voc realmente acha que vai morrer?  perguntou Brit abruptamente.
	Acho  Angela confirmou suavemente.  H um peso em mim que no me deixa.  o peso da minha conscincia.
As irms contemplaram-na em silncio. Angela comeou a falar, a voz suave e fraca:
	Foi h vinte e quatro anos. Eu estava aqui, em Minepols. Era inverno. Corine, querida, voc conhece Minepolisno inverno?
	E como!  Corine respondeu.
	Eu no conhecia. Estava acompanhando meu marido em  uma de suas viagens de negcios. Ele adorava dirigir e eu adorava estar com ele. Nada me deixava mais feliz do que estar com ele. Sei o que o amor faz com as pessoas, como nos deixa vivos e em paz com a vida. Alf se foi h nove anos. Deixou uma fortuna que havia economizado para nossa aposentadoria. Planejvamos fazer cruzeiros na Grcia e no Caribe. Ele queria me dar uma aposentadoria de classe. Que tolice... Como se no tivesse me dado isso durante toda a vida. Agora eu digo s pessoas para gastarem em vez de guardar. No economizem para um dia que nem sabem se chegar.
Ela olhou para Brit.
	No importa que Mitch me chame de intrometida. No consigo ficar de fora. Isso me trouxe a vocs. Minha vida est ligada a vocs. Aquela nevasca apareceu de repente. Nunca tinha visto uma coisa como aquela. Num minuto o cu estava azul e lmpido e no instante seguinte as nuvens que se avistavam a distncia pairavam sobre ns. O horizonte se misturava com o cu. A visibilidade era terrvel, como se tivssemos cado em um vale de plumas brancas. No se via a estrada e tivemos medo de parar no acostamento e sermos abalroados por trs.
Comeamos a presenciar coisas terrveis. Carros caindo nos fossos, caminhes derrapando. A estrada era uma pista de gelo. Pude ver Alf suando, as mos brancas segurando a direo com fora, aproximando a cabea do pra-brisa para tentar enxergar. E ento ele gritou e eu vi que estvamos perto demais do veculo da frente.
Angela fez uma pausa e continuou:
	E interessante envelhecer. Lembro-me de cada detalhe daquela tarde, vinte e quatro anos atrs. No me lembro do que comi ontem no almoo, mas me lembro de como Alf e eu estvamos vestidos e do cheiro fresco do inverno.
Ela parou e respirou profundamente.
 Angela, no continue se isso vai deix-la nervosa  Abby interveio.
	Faz vinte quatro anos que isso me atormenta. Talvez contando eu possa ter a paz que necessito.
As irms trocaram olhares preocupados.
	Nosso carro estava derrapando e por um milagre no batemos no veculo a nossa frente. Eu olhava para frente e vi o que aconteceu em seguida. Era um carro azul, pequeno. Um caminho apareceu na lateral do carro, um caminho muito grande e branco.
	Ainda posso ver as letras pretas na lateral do veculo:
Exterminador de Insetos e a figura de uma aranha. Uma aranha preta e peluda, com olhos vermelhos.
A descrio da aranha fez Corine sentir uma sbita tontura. Era como se estivesse vendo o acidente e no apenas imaginando.
	Voc est bem, querida?  Angela perguntou.
Ela meneou a cabea, em silncio, e lgrimas comearam a escorrer pelo seu rosto. Brit e Abby aproximaram as cadeiras dela e seguraram-lhe as mos.
	Eu me lembro disso  Corine sussurrou.  Eu me lembro... Por isso temos tanto medo de aranhas,
Angela meneou a cabea, tambm chorando.
	Sim, meu bem,  por isso.
Brit se levantou.
	Vou buscar um caf para Corie. Abby, quer um? Sra. Pondergrove?
Abby negou e Angela pareceu nem ter escutado, imersa em suas recordaes. Brit voltou e Corine sentiu-lhe os dedos gelados ao pegar a xcara de caf que ela trouxera.
	Voc est bem, querida?  perguntou Angela.
Corine confirmou.
	Eu vi o rosto do homem que dirigia o carro azul. Era jovem e bonito. Tinha determinao no olhar e no medo. Mas no havia nada que ele pudesse fazer. O caminho bateu no carro, que se desintegrou. Havia partes voando para todo lado. Deslizamos na frente do caminho e Alf parou no que ele achava ser o acostamento. Ele desceu do carro e correu para dentro da nevasca. Eu sabia que ele tinha corrido at o carro azul eu tive medo de acompanh-lo, mas acabei indo tambm.
Ela suspirou.
	O homem que dirigia o carro estava morto. Eu nunca havia visto uma pessoa morta, mas de algum modo a gente reconhece a morte quando a v. Ele tinha sido arremessado para fora. Ento vi a mulher e ouvi-a chorando. E no tive mais medo. Fui at ela e me agachei na neve ao lado dela. Quando vi que ela tremia tirei meu casaco e o pus sobre ela. E nem senti frio. Ao meu redor havia muito barulho. Carros derrapando e batendo em outros carros, mas nenhum som de sirene. Demorou muito tempo at que as ambulncias pudessem chegar ao local. E, no meio daquele caos, parecia apenas existirem ela e eu. Ela era to bonita... Tinha os cabelos dourados e os olhos estavam apavorados. Eu nunca tinha visto olhos daquele tom de castanho. Eu sabia que ela estava morrendo, pude perceber nos olhos dela.
Corine e as irms choravam.
	Eu sabia que tinha sido encarregada de uma misso especial. Que era meu dever, de algum modo, fazer com que ela morresse sem sentir dor. Segurei a mo dela, alisei seus cabelos e a escutei, e a cerquei de amor para mant-la calma. Foi isso o que eu fiz. Eu a ouvi e fiz uma promessa que lhe deu paz. Depois que eu fiz essa promessa, ela sorriu... Um sorriso radiante. Ainda posso v-lo, dentro da minha alma. Ento ela apertou minha mo e se foi. E ento... eu ouvi os bebs chorando.
CAPTULO IX

Quando ouvi o choro dos bebs lembrei do olhar do homem. No era de medo, era de determinao. Determinao de salvar suas crianas. Angela recostou-se nos travesseiros, parecendo subitamente exausta.
	Estou muito cansada. Desculpem-me.
	J foi suficiente para um dia     declarou Abby.  Voc no precisa nos contar tudo agora.
	Preciso, sim, querida. Tenho que contar tudo, especialmente a promessa que fiz para a me de vocs. E que no cumpri. No pude cumprir.
	Isso pode esperar at amanh  Abby disse, assim que Brit saiu do quarto para voltar com Jordan.
Todas olharam para ele. Era alto, grisalho, distinto. Ele olhou para Angela e correu para o lado dela. Sem hesitar, ajeitou-a na cama e sentou-se ao lado dela, vestido com um terno impecvel. Puxou-a contra si e Corine percebeu que ela relaxava, sorrindo levemente e segurando a mo dele. Era como se, de repente, s estivessem eles dois no quarto.
Aquilo a fez lembrar de Matt.
Jordan havia reservado um quarto para elas num hotel perto do hospital. Abby e Brit saram para jantar, mas Corine no quis acompanh-las. Depois que elas saram, pegou as chaves do carro que haviam alugado e deixou um bilhete avisando-as de que tinha sado para dar um passeio.
Coisa tola de se fazer. Dirigir por Minepolis para ter recordaes terrveis, como a casa de sua tia Ella e todos os lares adotivos onde vivera. Passar pelo velho prdio de apartamentos onde morara a fez sentir como sua vida fora vazia e incompleta.
Era como se todo aquele lugar a tivesse magoado e ir embora estivesse representando sua cura. Serviu tambm para arrancar a crosta amarga que tinha sobre si e passar a acreditar que coisas boas poderiam acontecer.
Voltar a Minepolis era como mergulhar no que ela tinha sido, era como sair de um banho quente e mergulhar em um lago gelado.
	Aonde voc foi?  suas irms perguntaram preocupadas quando ela, finalmente, voltou ao hotel.
Corine sorriu como se nada tivesse mudado.
	Fui conferir minha realidade.
E no disse mais nada.
No dia seguinte as trs irms voltaram ao hospital para ver Angela. Ela parecia mais tagarela naquela manh. Convidou-as a sentar e retomou a histria de onde parara na vspera.
	Sinto-me muito melhor hoje. Esto prontas para ouvir?
Brit e Abby concordaram imediatamente, mas Corine relutou em menear a cabea.
	O nome dela era Belle. Abby, voc deu o mesmo nome a sua filha. Gosto de pensar que uma parte de voc lembra-se dela com amor e alegria.
	Pelo pouco tempo que passei com ela, a impresso que tive foi que a me de vocs era uma mulher capaz de realizar coisas raras. Ela era um misto de fora e gentileza. Primeiro ela falou sobre o marido, Allan. Eu no tinha certeza se ela sabia que ele tinha morrido, ento no disse nada. Ela contou que eles se amavam muito e que haviam se apaixonado to rapidamente que as pessoas achavam que no iria dar certo. E que esse amor que os dois partilhavam os levou muito perto do paraso. Vocs no acham impressionante ter acontecido a mesma coisa com vocs? - Angela interrompeu o relato para perguntar.
Abby e Brit menearam a cabea, mas Corine ficou imvel.
	E ento, ela falou de vocs. De suas trs filhinhas. Seus nomes foram dados de acordo com as letras do alfabeto  medida que iam nascendo: Abigail, Brittany e Corine. Falou da alegria que foi o nascimento de vocs quando eles j haviam perdido a esperana de ter filhos. Vocs representaram um milagre na vida de seus pais. Ela estava preocupada por no poder acompanhar o crescimento de vocs e muito triste por no poder participar dos eventos das suas vidas, seus primeiros dias na escola, a formatura e o casamento. Estava muito preocupada com quem as orientaria para a vida, j que ela no estaria mais ao lado de vocs.
Corine teve vontade de enterrar o rosto nas mos e chorar, mas lembrou-se das regras novamente. Sentiu a mo de Abby em seu ombro.
	Eles no tinham uma famlia grande. Havia apenas uma irm de Belle, no me lembro do nome...
	Ella Bigelow  Corine sussurrou.  Tia Ella.
	Ah, sim. Belle estava muito preocupada de vocs ficarem com essa irm. Ela amava a irm, mas dizia que ela era emocionalmente frgil, que nunca seria capaz de dar a vocs um lar cheio de amor, calor, abraos e beijos. E engraado lembrar disso to claramente... Posso ouvir a voz dela como se estivesse a meu lado agora. Belle estava ficando muito agitada, preocupada em vocs irem para a casa de sua tia. Com a fora que lhe restava apertou a minha mo e me fez prometer...
Angela engoliu em seco.
	...me fez prometer que vocs seriam felizes, que eu iria fazer todo o possvel para que isso acontecesse. E eu prometi. Em uma noite fria de inverno, no meio de um pesadelo, em uma estrada entre St. Claude e Little Falis, em Minnesota, eu fiz uma promessa para a me de vocs.
Angela estava chorando.
	Mas no sabia como fazer  ela soluou.  Eu no era da famlia, nem pude obter informaes sobre vocs no hospital. Naquela noite, assistindo ao noticirio como todo mundo, soubemos que vocs estavam vivas. Como eu poderia ter alguma influncia na vida futura de vocs?
	Alf e eu voltamos para a estrada logo que a tempestade amenizou. Ele tinha uma conferncia em Ontrio e ns tnhamos acabado de nos mudar. Na realidade, quando fiz aquela promessa, eu deixei uma parte da minha alma naquela estrada. Passei a vida me lamuriando e querendo saber o que havia acontecido queles trs bebs. Alf, que Deus abenoe sua alma, via a dor que aquilo me causava e me aconselhava a esquecer. Mas quando ele morreu e eu vi todo aquele dinheiro, imaginei que talvez tivesse meios de remediar a promessa que eu no havia cumprido. Contratei um detetive para localizar vocs e descobrir o que havia acontecido com cada uma. Fiquei arrasada com as notcias que ele me trouxe. Vocs haviam sido separadas.
Angela olhou para Corine.
	Corine, voc foi a primeira a ter alta no hospital. Surpreendentemente teve apenas algumas escoriaes. Sua tia a levou para casa. No posso conden-la. Sua me sabia que ela era fraca. Enquanto isso, no hospital, uma enfermeira chamada Judy Blakely cuidou de Abby, que estava em condies crticas. A enfermeira se apaixonou pelo beb e no queria deix-la ir. Ella mal podia cuidar de um beb, o que faria com mais dois? Acho que ficou aliviada quando Judy levantou a hiptese de adotar Abby. Um advogado estava envolvido e acho que a segunda adoo foi arranjada por ele e Brittany foi adotada por Conroy e Michelle Patterson, na Califrnia.
	Mas por que ela no me deu em adoo, tambm?  Corine perguntou, percebendo a dor na prpria voz e desprezando-se por ser to fraca.
	Nunca saberemos a resposta, querida. Sua tia Ella morreu h dezesseis anos. '
	Mas ento, Corine tinha apenas onze anos. O que aconteceu com ela?
	Acho que essa resposta  Corine quem deve dar, se ela quiser.
Corine olhou para todos os lados menos para as irms.
	Quando eu tinha seis anos, tia Ella ficou doente e eu comecei a ir para lares adotivos  murmurou.
Em silncio, suas irms olhavam para ela, sem saber que a ternura em seus olhos a estava matando por dentro, enchendo-a de um desesperado desejo de ter o que nunca havia tido e que nem agora parecia possvel. Errara em acreditar que poderia ser uma pessoa diferente. E no iria levar seus problemas para Matt.
	E quando ela morreu, voc no poderia ter sido adotada?
 Abby perguntou, as lgrimas escorrendo livremente pelas faces.
	Ningum me quis  Corine sussurrou.
A palavra "incorrigvel" estava estampada na sua testa. Aflio e confuso haviam se transformado em raiva e no silncio hostil que se seguia aos acessos de raiva.
	No posso acreditar que minha me, Judy, tenha feito isso comigo  Abby disse furiosa.  Ela sabia! Como pde me deixar afastada das minhas irms? De Corine, que precisava de ns?
Alguma coisa dentro de Corine congelou e ela teve vontade de gritar.
No, eu no preciso de vocs. Eu no preciso de ningum!
Corine sentiu a enormidade daquela mentira, o profundo desejo de precisar de algum, de ser necessria. Teve vontade de morrer ou de desaparecer.
	Acho que Judy Blakely tinha seus prprios problemas  Angela falou com docilidade.  Dificuldades de famlia que a fizeram mudar para Chicago. Sua tia Ella era uma pessoa difcil e no encorajou Judy a manter contato.
	Meus pais sabiam?  Brit perguntou.  Sobre minhas irms?
	Creio que ter de perguntar a eles. De qualquer modo, para terminar, tive de contratar um detetive particular para descobri-las e amainar meu sentimento de culpa. Torcia para que ele as encontrasse felizes e criando suas prprias famlias, mas no foi assim.
	Dei presentes a vocs  Angela sussurrou.  Abby recebeu segurana, Brittany a responsabilidade, e o que voc mais precisava, Corine?
	Voc me mandou o jumento.
O que ela mais precisava era ter algum para cuidar. S que Matt e Robbie tinham vindo junto.
Deus, fora tudo parte de um plano... O plano de Angela.
Lembrou de como suas irms haviam conhecido os maridos. Shane acidentalmente morando na mesma casa que Abby tinha herdado. Mitch era filho adotivo de Jordan.
	Inclu a clusula do casamento porque eu e a me de vocs fomos muito felizes no casamento. E me parecia que a alegria de cada uma de vocs estava naquilo que mais evitavam.
Corine se ps a pensar que, em toda a sua vida, as pessoas haviam feito planos para ela, decidindo o que seria melhor ou pior. Nunca tivera a liberdade de fazer escolhas. E agora fora manipulada para conhecer seu vizinho.
Mas por que ele tambm se preocupava com ela? Talvez esta fosse a maior ironia de todas: um homem como Matt preocupando-se genuinamente com uma mulher como ela.
	Voc sabia que Matt Donahue queria aquelas terras de volta, no sabia?  Corine murmurou.
Como tinha se esquecido desse detalhe? Ele queria a terra de volta. At onde ele iria para consegui-la? Provavelmente a qualquer lugar. Ela era incorrigvel e ningum a queria. Que tolice pensar que isso poderia mudar! Tudo no passara de uma velhinha tola brincando com sua vida.
	Depois de contar para vocs que eu havia conhecido sua me  Angela continuou , um pouco antes do casamento de Brit, comecei a duvidar se tinha agido corretamente. Adorei que tudo estivesse dando certo, mas de repente me pareceu que eu estava brincando de ser Deus. Senti-me tola e insegura. Precisava de algum tempo para pensar. Ento comecei a dirigir e de repente percebi aonde estava indo... De volta quele lugar. quela estrada. Encontrei o tmulo de sua me e isso me trouxe um grande conforto. Levava-lhe flores todos os dias e ficava conversando com ela sobre a vida e minhas confuses. E foi depois de uma dessas conversas que sofri o acidente e soube que tinha de contar a vocs toda a histria antes de morrer.
	Voc no vai morrer  Abby declarou com segurana.
Corine sentiu que s observava a uma grande distncia e teve a sensao de que nada daquilo era real. As ltimas semanas da sua vida haviam sido apenas uma parte do roteiro que algum escrevera. E agora elas sabiam. Suas irms agora sabiam que ningum a amara. Ningum a quisera.
Corine sabia o que iria acontecer em seguida. Elas comeariam a olhar para ela pelo canto dos olhos e veriam o que ela realmente era: introvertida e mal-humorada. No era uma pessoa agradvel de se conviver.
Matt tambm perceberia. Por quanto tempo seria capaz de manter-se saudvel e risonha? Em quanto tempo as sombras voltariam e todos descobririam que ela nunca aprendera a amar algum? Que no tinha nada para dar?
No podia magoar suas irms. Nem Matt e nem Robbie. Ou Angela.
Era pattico, mas estava contente por ainda ter o jumento. Ao menos ele nunca esperaria nada dela a no ser alimentos e um afago.
Corine sabia o que fazer. Pegaria o jumento e iria embora para um lugar onde nunca estivera antes. Algum lugar onde ningum a conhecesse e nem esperasse que ela fosse o que nunca fora: amvel e alegre. O tipo de mulher que podia correr pela praia empinando uma pipa. O tipo de mulher que podia beijar um homem em pblico.
Corine levantou-se. As trs mulheres ainda estavam conversando e ela sabia que as estava interrompendo, mas no se importou:
	No estou me sentindo bem. Vou para o hotel.
	Eu a levarei  Abby ofereceu, levantando-se.
	No. Preciso caminhar. Preciso de ar fresco.
Abby ia abra-la, mas ela recuou, virou-se e caminhou at a porta.
O amor era difcil demais. Exigia que a pessoa fosse vulnervel e aberta e ela no conseguia ser assim.
Corine comeou a correr.
Sua irm foi embora? O que voc quer dizer com isso?  Matt perguntou, tentando espantar o sono.
Quase no dormira desde que Corine partira. O jumento parecia sentir a falta dela, pois gemia sem parar. Matt podia ouvi-lo da sua casa.
Esta noite, Matt cedera. Pusera Cupie Doll no trailer e a levara at a casa de Corine. E soltara o jumento.
Cupie Doll era infrtil, mas a veterinria havia dito que o smen de um jumento  mais forte do que o de um cavalo.
Imagine, aprender coisas novas naquela idade.
Ele e Robbie observaram os dois animais pastando sem nem se aproximar da cerca. Matt conseguiu levar Robbie embora antes que o namoro dos dois animais comeasse.
A srta. Beatle provavelmente no aprovaria se Robbie decidisse contar o que se passava entre os animais.
Matt tentou ficar desperto.
A mulher do outro lado da linha parecia estar chorando. Era Brit.
	Corine desapareceu?  ele perguntou.
Agora ele estava completamente desperto, escutando tudo com ateno.
Matt desligou o telefone e olhou para a parede.
Obedea a seu primeiro instinto.
Deveria ter ido com ela. Teria sido simples.
Era bvio que ela no estava perdida. Tinha vinte e sete anos e estava na cidade onde nascera. No estava perdida. Apenas no queria ser encontrada.
Brittany lhe pedira que telefonasse caso soubesse de alguma coisa. Ele anotou o nmero, mesmo sabendo que no iria adiantar. Provavelmente ela no voltaria ali.
Brit no lhe contara toda a histria, mas o suficiente. Uma tia maluca, lares adotivos, nenhuma esperana de adoo.
E Corine teve de escolher: voltar ou fugir.
De repente, ele intuiu que ela voltaria por causa do jumento.
Precisava agir. A um certo ponto da vida deve-se que abandonar as regras e seguir o corao.
E seu corao dizia que ela voltaria por causa do jumento.
Sentou-se na cama, meneou a cabea para espantar o sono e vestiu o jeans.
Entrou no quarto de Robbie, embrulhou-o no cobertor e pegou-o nos braos. Robbie tinha um livro na mo que caiu no cho, acordando o garoto que gritou:
	Brandy, eu preciso de Brandy.
Matt parou e pegou o livro. Era o livro que Robbie o fizera ler inmeras vezes. O desenho da capa era similar ao que tinha visto na tela que estava sobre o cavalete, na sala de Corine.
	Me d o livro, ti^ia.
	Durma, temos que ir  casa de Corine.
	Ela voltou?
	Ainda no.
	Voc sabe quem ela  de verdade?  o menino perguntou ao tio.
	Sim, acho que sim.
	Ela  Brandy  Robbie balbuciou, pegando o livro de volta e colocando-o sob o brao. Ps o polegar na boca e descansou a cabea no ombro do tio.  Eu rezei para ela vir.
	Por qu?
	Porque ela sabe o que  sentir saudade e tristeza.
	Ela e o jumento, no ?
	Sim, ela e o jumento.
	Por que voc no me disse?
	Minha me pediu que eu cuidasse de voc. Por isso rezei para Brandy vir. Ela sabe tudo.
Matt franziu as sobrancelhas. Algum dera aquele livro a Robbie no funeral de Marianne. Uma velhinha que ele no conhecia. Na ocasio, conclura que devia ser uma conhecida de Marianne. 
Se Brit telefonasse de novo, perguntaria como era a sra. Pondergrove.
Matt ps Robbie na cabine da caminhonete e se dirigiu para a casa de Corine. Teve medo que Corine tivesse chegado, apanhado o jumento e partido.
Mas o jumento e Cupie Doll estavam juntos sob a luz da lua. Ele pegou Robbie e subiu a escada da varanda. A porta estava trancada, mas a fechadura era fraca e ele conseguiu entrar dando um chute no trinco.
Ps Robbie no sof e quando o menino dormiu ele pegou o livro. Brandy, escrito e ilustrado por Corine Parsons. No havia nenhuma foto da autora.
Mas lendo o livro era fcil reconhecer a escritora. Corine estava em cada uma das linhas. Finalmente, ela lhe contava sobre todos os lugares onde vivera e sobre como era seu corao.
Seu corao corajoso, forte e invencvel estava em cada personagem que ela criara.
Depois de um certo tempo, Matt tirou as botas, recostou-se no sof e dormiu.
Despertou com o som da porta de um carro batendo. Levantou, foi at a janela e a viu pagando o motorista do txi.
Saiu de perto da janela e ouviu quando ela respirou fundo ao ver a porta aberta.
Ela no vira sua caminhonete?
	H algum aqui?  Corine perguntou com a voz carregada de medo.
	Sou eu  ele respondeu suavemente.  Estou aqui, Corine.
Ela acendeu a luz e ele teve que proteger os olhos da claridade repentina.
	O que voc est fazendo aqui?
	Creio que voc e eu temos negcios para terminar.
	No, no temos. Voc pode ficar com as terras. E nem precisa se casar comigo para isso.
	yoc me perdeu em algum ponto do caminho, querida.
	E claro que sim. Saia da minha casa.
Matt cruzou os braos sobre o peito e no se moveu.
	Suas irms me telefonaram. Esto preocupadas com voc.
	No tero mais que se preocupar comigo.
	Por que isso, Corine?
Ela passou por ele, pegou uma mala e comeou a jogar coisas dentro.
	Voc vai a algum lugar?
	Vou.
	Onde?
	Para um lugar onde voc no esteja.
	Do que tem medo?
Ela ficou tensa, endireitou o corpo, olhou para ele e respondeu secamente:
	No tenho medo de nada.
	Sim, tem. Voc tem medo de tudo. A maior parte das pessoas tem medo de morrer. Voc no. Voc tem medo de viver.
	 Onde posso alugar um trailer para cavalo? Ele estava certo. Ela voltara pelo jumento, um animal feio e teimoso.
	Para que quer um trailer para cavalo? Voc no tem um cavalo.
	Voc sabe por qu.
	Aonde voc vai, Corine?
Robbie mexeu-se no sof.
 Para algum lugar onde ningum me conhea.
	Sabe qual  o problema? Pode ir para qualquer lugar, mas no fugir de voc mesma.
Ela olhou para ele. ?
	Alm do mais, no pode ir para qualquer lugar  ele completou. 
	Por que no?
	Porque seu jumento esteve com minha gua. Poder ser pai.
Corine parecia cansada e lutando para se controlar.
Matt queria abra-la e dizer-lhe que ali ela estaria segura e que ele tinha um corao para lhe dar.
Ela teria que confiar nele e contar tudo que acontecera em Minnesota. Mas a deciso tinha que partir dela.
Matt caminhou at o sof e sentou-se. Depois de um momento, esticou as pernas e as ps ao lado de Robbie. E fechou os olhos.
	O que voc est fazendo?  ela perguntou furiosa.
	Me assegurando que voc no vai a lugar nenhum antes de acertarmos as contas com o jumento.
	Pode confiar em mim.
	Bem, voc tambm pode confiar, em mim, mas no  isso que faz.
Ele pegou o chapu do cho e colocou-o sobre o rosto.
 Pode telefonar para suas irms e dizer-lhes que est bem?
Depois de algum tempo ele a ouviu ir para o quarto e fechar a cortina.
Ela poderia ter ido embora. Mas ficara, o que significava que em seu corao ela queria ficar.
Matt ficou acordado durante um longo tempo, pensando em como a vida o encaminhara para aquele momento. Na verdade, antes da morte de Marianne, ele fora um homem muito egosta e nunca tivera conscincia disso.
Tinha agarrado o que a vida lhe oferecera e no dera nada em troca. No tinha gasto nem um pouco de sua energia pensando em coisas que no lhe diziam respeito. Possua seus cavalos, seus negcios e isso era suficiente.
Bem, sempre gostara de coisas perigosas, mas isso era para alimentar seu grande ego. Gostava de ter sucesso onde ningum mais conseguia, onde todos haviam falhado.
Agora, refletindo sobre isso, percebeu que Brbara e ele combinavam nesse ponto. Egostas e suprfluos. Ambos preocupados em adquirir quinquilharias, em perseguir sonhos sem importncia. No concorriam para tornar as pessoas melhores em um mundo melhor.
Ento sua irm ficara doente e ele gritara aos cus: por qu? Por que ela? Por que esse garoto? Por que eu?
E soube que nunca iria ter essas respostas.
Mas essa noite entendera. Sua dor o tornara melhor. Fizera dele um homem capaz de entender a dor de outras pessoas, de estender a mo para outros em vez de se afastar.
A morte de sua irm o tornara responsvel pelo seu sobrinho e o ensinara a fazer o que nunca fizera antes: dar em vez de receber.
E agora, esse dom que ele recebera e que o conduzira a esse preciso momento poderia ser oferecido a Corine.
E ela poderia fazer sua escolha.
Ficar ou ir embora. 
CAPITULO X

Matt acordou com dor no pescoo. Aquele sof  no era feito para dormir, principalmente para um homem da sua altura.
Olhou para a extremidade do sof e franziu o cenho. O lugar onde Robbie dormia estava vazio e o cobertor no cho.
Robbie?
Sentou-se procurando ouvir sons de armrios se fechando, gua correndo no banheiro ou outros sons prprios de uma casa. Nada.
Pegou o cobertor e fiou nervoso quando no encontrou o livro de Robbie.
Levantou-se e fez um rpido inventrio de toda a casa at olhar atrs da cortina que levava ao quarto de Corine.
Ela estava sentada na cama, olhando para ele. Em qualquer outra oportunidade teria saboreado aquele olhar, mesmo ainda cheio de animosidade.
Estou procurando Robbie. Voc o viu?
Ento ele percebeu a porta da frente semi-aberta.
No era possvel. Aquela era uma das primeiras regras que ensinara a Robbie. Que no andasse pelo rancho antes que todo o pessoal estivesse acordado. Tinha imposto esta regra depois de acordar, uma manh, com um sentimento de vazio. Como naquele momento.
Matt escancarou a porta, saiu para a varanda e passou a mo pelo cabelo.
Robbie?  ele chamou.  Robbie?
No obteve resposta.
Corine saiu atrs dele vestindo um casaco. No era a mesma garota que o recebera certa vez de camisola e tnis.
Por que est to preocupado?
	No sei onde Robbie est.
	Ele deve estar com o jumento.
Ambos olharam para o celeiro e ento Matt lembrou-se de que soltara o jumento na noite anterior. Viu a gua, mas o jumento no. Ele praguejou baixinho.
	O que h, Matt?
	Acho que ele pegou o jumento e fugiu.
	Mas por qu?
	Creio que ontem  noite ele acordou enquanto estvamos conversando.
Corine empalideceu.
	Mas ele no se importaria se eu fosse embora  ela murmurou.
	Oh,  claro, ele est acostumado a perder tudo que gosta.
Corine sentiu como se tivesse sido esbofeteada.
	Vocs dois estaro melhor sem mim.
	Posso saber por qu?
	Porque eu no sou...  Ela deu de ombros.  Porque ningum pode me amar.
	Voc no se deixa amar, Corine.
	Matt, tenho certeza disso. Estive em vrios lares adotivos desde os seis anos. Minha prpria tia no me suportou.
	Voc no sabe de nada.
	Tambm estive presa.
Matt pde ver vergonha e terror nos olhos dela. Finalmente, ela tinha revelado seu segredo. Confiara nele.
	O que voc fez?  ele perguntou.
	Eu tinha dezesseis anos e roubei.
	Oh, cus. Foi isso que fez? Tornou tudo muito pior do que realmente era para poder sentir mais pena de si mesma? Eu passei uma noite na cadeia quando tinha dezessete anos e tomei  uma bebedeira. Foi h muito tempo e eu consegui me perdoar.
	Voc no entende.
	Sim, Corine, eu entendo.
	No posso fazer parte do seu futuro e de Robbie. No sei como fazer isso.
timo. Que tal voc dizer isso a ele quando o encontrarmos?
Matt entrou em casa e calou as botas sem olhar para ela.
 Respirou fundo e declarou:
	No foi culpa sua ele ter ido embora. No ponha mais isto na sua cabea.
	Apenas me diga o que tenho de fazer.
	Ele no deve estar longe. Vamos dar uma olhada nas redondezas.
Os dois saram juntos, chamando por Robbie. Mas nem sinal dele ou do jumento. Isso significava que ele devia ter acordado mais cedo do que Matt imaginara. Era muito difcil esconder um jumento.
Como Robbie persuadira o jumento a largar a namorada?
	Sua gua veio sozinha at aqui?
	No, eu a trouxe. Cansei de v-la amuada e de ouvir os relinchos do seu jumento.
	Voc os ps juntos? Mas eu pensei...
Ela pensava que seus cavalos e sua propriedade eram tudo para ele.
Matt tocou no ombro dela.
	Algumas coisas acontecem independentemente da nossa vontade e no sou eu que vou interferir.
Corine afastou-se, mas ele percebeu que a resistncia dela estava abalada e sua ipra e beleza aflorando. Ela manteve a calma. Tinha muita experincia em lidar com crises.
Suas decepes haviam lhe dado todos os dons que ela possua agora: criatividade, fora de esprito e a sensibilidade que a faziam estar sempre na defensiva.
	Vamos voltar a sua casa e eu vou ver se encontro alguma trilha.
Logo a trilha foi localizada. Havia pegadas de criana e de cascos.
	Ele foi para a estrada. Suba na caminhonete.
Corine obedeceu sem discutir. Matt sabia que, se fizesse algum comentrio, ela iria para sempre. Ento ficou em silncio como se a estivesse ignorando, e deu partida no veculo.
Corine sentou-se ao lado dele. Ele tinha pedido que ela fosse junto? No, apenas conclura que ela iria. E agora ele sabia de tudo.
Teria ela superestimado os fatos? Estaria com pena de si mesma? Iria jogar fora a chance de ser feliz?
Matt diminuiu a velocidade e parou. Desceu e ela viu que ele examinava a terra da estrada e olhava a distncia.
Poderia descobrir uma trilha como fazem os escoteiros? Poucas pessoas tinham essa capacidade.
Mas Matt Donahue era especial. Era de um tempo mais simples, onde os homens eram fortes e honestos.
	Ele est indo para a cidade.
Voltou para a caminhonete, com uma expresso severa. Corine estava preocupara com Robbie. Fora sua culpa. Sempre era sua culpa.
	Por favor, no se culpe.
Corine olhou para ele, que mantinha os olhos na estrada, olhando para ambos os lados.
No se culpe.
Matt no queria que ela se culpasse, mas ela via o acontecido de maneira diferente. Sim, era culpa dela, do que ela sentia, do que pensava e acreditava.
Subitamente, Corine entendeu o que era o amor. Era a habilidade de pensar nos outros e perdoar se fosse necessrio. Era ser capaz de dar alguma coisa a algum, de perder o egocentrismo que entrara nela como um vrus quando voltara a Minepolis.
Talvez a vida fosse to simples quanto Abby dissera.
Poderia ser simples deixar o passado para trs e no olhar para o futuro? Simples como acreditar "que coisas boas podiam acontecera ela?
Mas no haviam acontecido coisas boas! Robbie havia desaparecido!
No entanto, Abby dissera tambm que s vezes coisas que pareciam ms revalavam-se boas no final. Se Robbie no tivesse fugido naquela manh, ela teria arrumado suas coisas e fugido.
Ocorreu-lhe, como uma luz no final do tnel, que Robbie precisava dela e ningum precisara dela antes.
Mas aquele garotinho precisava.
Ela olhou para Matt. Ele tambm precisava dela.
Matt era grande, forte e auto-suficiente, mas era solitrio. Precisava de alegria e suavidade, precisava saber que a vida no levava embora todas as coisas boas. 
Perdera a irm. No podia perder o sobrinho tambm.
E nem a ela.
Corine escorregou no banco at suas coxas e ombros se tocarem. Matt olhou para ela, que lhe sorriu, afastando a preocupao do seu olhar.
	Bem-vinda...  ele murmurou, olhando fixamente para frente.
	Matt...  Corine gritou, rindo e chorando.  L est ele!
Robbie caminhava no meio da estrada puxando o jumento
que o seguia docilmente. Ouvira a caminhonete e afastava-se para a lateral da estrada para dar passagem. Mas no olhara para trs.
Matt parou ao lado dele e desceu a janela.
Corine viu que Robbie carregava a mala dela. Ainda bem que no a enchera.
Robbie olhava para frente.
	Precisa de uma carona, companheiro?  Matt perguntou.
As faces do garoto estavam midas de lgrimas, mas ele meneou a cabea com teimosia.
	Est deixando sua casa?
Robbie confirmou.
	Posso ir junto? No tem sentido eu ir para casa sem voc. No seria mais um lar.
Robbie olhou para o^ tio e franziu as sobrancelhas ao ver Corine.	
	Posso ir junto tambm?  ela perguntou.  Vejo que voc j pegou minha mala e o meu jumento.
	Eu sabia que voc no poderia ir sem a mala e sem o jumento.
	Ento  ela ergueu os ombros.  Tudo que eu quero est aqui na estrada. Acho melhor eu ir junto.
Estranha coincidncia. Vinte e quatro anos atrs ela perdera tudo que tinha em uma estrada. Seus pais e suas irms. E agora, tambm em uma estrada, tudo estava lhe sendo oferecido.
	Matt, encoste.
Ele encostou, desceu da caminhonete e deu a mo a Corine. Olhou para ela durante um logo tempo e beijou-lhe os lbios com delicadeza.
Em seguida os dois correram para alcanar Robbie.
Corine pegou na mo do garoto e Matt pegou a corda que puxava o jumento com uma das mos e com a outra pegou a mo de Robbie.
Caminharam juntos em silncio, subindo a colina. Robbie olhou para o tio e para Corine e perguntou:
	Aonde estamos indo?
	Voc  quem sabe  Matt disse.  Voc decide.
	Corie vai embora?
 No. Decidi ficar.
	Tenho sanduche de pasta de amendoim e manteiga. Podemos parar e eu dividirei com vocs.
	Est com fome, Corie?  perguntou Matt.
	Estou morrendo de fome  ela respondeu, enquanto chegavam ao topo da colina.
Abaixo eles podiam ver Miracle Harbor, as casas parecendo pequenas caixas, e alm da cidade, o oceano azul, profundo e infinito.
Caminharam um pouco mais e Matt amarrou a corda do jumento em uma cerca. Robbie abriu a mala. Havia um sanduche sobre as coisas que ela apressadamente jogara ali dentro, na vspera.
Na noite anterior Corine dormira sem acreditar em milagres. Mas o que estava acontecendo agora no era um milagre? Podia uma garota como ela, que nunca conhecera momentos como esses, desejar algo mais?
Corine viu Robbie cuidadosamente dividir o sanduche em quatro.
	Quatro?  Matt perguntou.
	Tem o jumento  Robbie respondeu.
	Acho que  hora de dar um nome ao jumento  ela disse.
 Vou cham-lo de Miracle.
	Oh...  Robbie suspirou.  E perfeito.
Corine olhou para seu jumento, que os observava pelo canto do olho. Sim, era perfeito.
Dar esse nome ao jumento era como dizer que no iria mais embora. Iria ficar.
Matt entendeu mesmo sem ela ter dito nada. Ergueu o sanduche e props:
	Um brinde!
	O que  um brinde?  Robbie perguntou.
Eles explicaram o que era um brinde e brindaram com os sanduches.
	Um brinde  Matt disse srio. : Aos milagres.
Comeram os sanduches. Robbie comeu a parte do jumento depois que Miracle preferiu a grama.
	Eu ouvi vocs falando a noite passada  Robbie disse.  Fingi estar dormindo, mas ouvi Corine dizer que ia embora. Esperei at voc dormir titia, isto , titio e fui pegar o Miracle.
	Ento agora eu sou titio?
	Sim, agora tenho minha titia.
	Tem?
	Corine vai ser minha tia.
	Ei, garoto, voc est se precipitando.
	No livro, Brandy fugia e eu decidi tentar tambm.
Corine ps o menino no colo.
	Brandy no  real, querido.
	Sim, ela   disseram Matt e Robbie juntos.
	O qu?!
	Ela  voc  afirmou Matt.  No percebeu?
De repente Corine percebeu. Podia ver como a personagem que ela criara era parecida com ela prpria. Mas Brandy amava a todos.
	Est chorando, titia?
Ela meneou a cabeia sem conseguir falar. Sentiu o brao de Matt ao redor dos seus ombros.
Eram uma famlia, ali, sentados na grama.
	Voc est triste?  Robbie perguntou.
	No  ela respondeu, olhando para Matt.  Estou feliz.
Robbie levantou-se.
	Adultos so muito estranhos. O Miracle quer ir para casa agora. Ele gosta de Cupie Doll e est com saudade dela.
	Vou com voc e o Miracle. Matt vai de caminhonete.
	Negativo. Vou caminhando tambm. Mais tarde venho buscar a caminhonete.
Matt levantou e ps Robbie sobre os ombros, enquanto Corine desamarrava o jumento e Matt a enlaava pela cintura. Alguns dias atrs ela pensara que no havia nada to mgico como fazer parte de uma famlia. Mas agora, sentia que era ainda mais mgico do que imaginara.
E ela fazia parte dessa mgica.
Depois de contatar suas irms para dizer que estava bem, eles passaram o dia juntos, rindo e brincando. Nos momentos de quietude, Corine contava a Matt sobre sua vida. Sobre o cachorrinho que no pudera ter, a jaqueta que tivera de partilhar e as linhas que tivera de escrever.
E,  medida que ia falando, sentia-se mais livre e observava a coisa mais surpreendente acontecer.
O amor de Matt por ela no diminua. Corine podia senti-lo crescer conforme ela lhe confidenciava fatos da sua vida.
	Tenho servio para fazer em casa  ele disse com relutncia em separar-se dele.
	V jantar esta noite em minha casa  ele a convidou.
Corine sorriu. Era como um teste final. Tudo havia se passado no territrio dela, sob seu controle.
	Est bem.
Nunca estivera na casa de Matt antes. Era a casa vizinha, mas ficava no alto da colina. O lugar era lindo. Cercas brancas, um celeiro grande e branco, cavalos pastando e correndo pelo pasto verdejante, potrinhos perto de suas mes.
Quando desceu do jipe, olhou para trs e pde ver Miracle Harbor a distncia. A casa dele era grande e antiga, pintada de branco, com venezianas verdes. A casa, cercada por uma varanda, vira geraes de Donahues irem e virem. Bebs haviam nascido naquela casa e crianas tinham brincado no balano pendurado no grosso galho de um enorme carvalho.
Era o tipo de casa que uma garota-que nunca tivera experincia com coisas duradouras tinha que ver.
O caminho at a casa era ladeado por flores que chegavam quase at a porta de entrada.
A porta principal estava aberta, mas a porta de tela fechada. Ela chamou Matt.
	Entre  ele disse.
Nervosa, ela entrou. Eram apenas ela, Matt e Robbie. Por que motivo estava to nervosa?
Parou na entrada, olhando para a sala de visitas.
Matt apareceu na porta da cozinha com uma toalha de mesa sobre um dos ombros.
	Gostei das flores  ela disse. No sei por qu, mas no imagino voc plantando flores.
	No fui eu que plantei. Foi minha irm. Ela dizia que flores so esperana. Entre. Esperana, o artigo mais precioso e espantoso da humanidade.
Corine entrou. A casa era exatamente como uma casa deveria ser. Havia brinquedos nas prateleiras e revistas abertas na mesinha do centro. No era uma casa onde no se podia tocar nas coisas, ao contrrio, via-se que as pessoas que ali moravam aproveitavam bem tudo que a casa oferecia. Era um verdadeiro lar.
Corine foi at a cozinha. Matt estava preparando salada e tinha alguns bifes prontos para serem assados. Dois bifes.
Ela olhou para a mesa da cozinha. Tinha candelabros e estava arrumada para duas pessoas.
	Onde est Robbie?  perguntou.
	Ahn... Sua irm o levou para passar a noite com ela.
	Cus! Espero que no tenha sido Brit.
	Foi ela, sim. Ela vai ficar com os dois: sua sobrinha Belle e Robbie.
	Graas a Deus que Mitch est l.
	Foi o que ela tambm disse.
Ambos riram ante a ideia de Brit com as crianas.
	Brit pediu-me para dizer que Angela parecia bem melhor quando a deixaram ontem. Jordan mandou colocar outra cama no quarto para poder ficar com ela. Isso significa alguma coisa para voc?	
Corine sorriu. Telefonara para Angela antes de sair de casa e percebera que sua voz estava bem mais tranquila. Agradecera-lhe pelo presente e por ter mantido a promessa que fizera a sua me.
Antes de desligar, ouvira a voz de Jordan e a risada de Angela. Para ela, essa risada significava que o milagre do amor nunca perecia. Era um milagre que no tinha limites. O amor de Jordan faria com que Angela se recuperasse completamente.
	Pegue  Matt disse entregando-lhe um grande pacote.
	O que ?
	E para voc.
	Para mim?
Corine no estava acostumada a receber presentes e ficou desconfiada.
	No vai abrir?
Ela comeou a desembrulhar e percebeu, com um sorriso, que o pacote estava mal embrulhado.
Eram lenis. Os mais lindos lenis que ela j vira. Eram de linho e bordados.
Corine engoliu em seco imaginando se aquilo significava o que ela estava pensando.
	Esses lenis so seu primeiro presente de casamento  declarou Matt.  O meu presente.
	Casamento?
	Sim, senhora. E vou manter minhas mos afastadas de voc at o casamento.
Ela no o conhecia? Ele no era um homem moderno e seria assim at o fim.
	Pode chorar, se quiser  ele disse.  Case comigo, Corine... Por favor...
Aquele "por favor" a deixou emocionada. Matt era um homem que poderia ter quem quisesse e a tinha escolhido. Era a coisa mais inacreditvel e maravilhosa do mundo.
Corine ergueu a cabea e se jogou nos braos dele, beijando-o todo. Beijou suas faces, seu pescoo, desabotoou sua camisa e beijou-lhe o peito, murmurando:
	Sim, sim, sim, sim!
	Poderia me dar uma resposta mais clara?  ele perguntou rindo.
Ento ele a beijou tambm.
	Quando vamos nos casar?  ela sussurrou.
	O mais depressa possvel. Sua irm Abby disse que ia aproveitar a ausncia de Belle e costuraria a noite toda.
	Voc contou s minhas irms?
	Suas irms sabem de tudo. Brit apenas olhou para mim quando eu levei Robbie at l e comeou a pular, gritando. E logo em seguida telefonou para Abby.
Suas irms sabiam de tudo! Sabiam quem ela era antes mesmo de ela prpria saber e a tinham amado incondicionalmente.
Como Matt, que iria ajud-la a lapidar sua vida at o carvo do seu passado se transformar em diamantes.
	Beije-me de novo  ela implorou.
	No, senhora  ele disse afastando-se.
Com uma risada que parecia sair-lhe da alma, Corine correu atrs de Matt at ambos ficarem ofegantes e ele cair no cho da sala de visitas e ela cair sobre ele.
Quando Matt a envolveu em seus braos, Corine teve uma rpida viso do futuro que teria com ele.
Vivera sob trs regras: nunca chorar, nunca ter esperana e nunca demonstrar medo.
Sentiu as lgrimas descerem pelo rosto, sussurrou que estava com um pouco de medo e sentiu todo o carinho que nunca tivera esperana de um dia receber.
Aquelas trs regras estavam banidas de sua vida.
Finalmente, ela aceitara um novo mundo e uma nova vida.

EPLOGO

	Eu j estou chorando e ainda nem comearam a tocar a msica  Brit soluava, olhando para o corredor da igreja.  Ela est linda toda de branco, no est?
	Sim, est  concordou Abby com uma expresso sonhadora.
	Adorei a ideia da cala de seda. Mitch, temos que renovar nossos votos para que eu possa usar alguma coisa nesse estilo.
	Estamos casados h apenas dois meses e trs dias  Mitch respondeu, olhando com indulgncia para a esposa.
	Olhe...  sussurrou Abby tambm com lgrimas nos olhos.
A msica finalmente comeara. Robbi e Belle, de mos dadas, comearam a caminhar pelo corredor da igreja. Ele, vestido com um terno preto, demonstrava pacincia com a pequena companheira, toda vestida de branco.
Corine continha as lgrimas, sentindo a mo forte do homem que estava sentado ao seu lado no banco da igreja.
De repente Belle tropeou, caiu sentada e comeou a chorar. A msica parou enquanto as pessoas ajudavam a garota e organizavam tudo novamente.
Corine disse s irms:
	Eu disse a vocs o que estamos esperando?
	O qu? - as irms perguntaram ao mesmo tempo.
	Uma pequena mula  ela disse feliz.  Na prxima primavera. Cupie e o Miracle.
	Matt Donahue  Brit murmurou , pode controlar sua esposa? Este no  o lugar adequado para se falar em animais.
	Farei o possvel.
Corine sorriu para ele. Esta era uma das coisas que estava descobrindo em si mesma. Era travessa, qualidade que fora interpretada como mau gnio durante toda a sua vida.
Matt sorriu para ela. Corine sabia que ele apreciava essa caracterstica do seu temperamento. A msica comeou de novo e as crianas chegaram ao altar sem mais nenhum incidente.
Angela Pondergrove levantou-se do nicho em que estava sentada, os olhos fixos na figura esguia de cabelos grisalhos que a esperava no altar. Caminhou pelo corredor da igreja como se estivesse flutuando.
A cala de seda branca servira nela com perfeio, e Corine sentia-se honrada em poder emprest-la. Adorara a ideia da sua roupa de casamento ser usada novamente, trazendo a mais algum a alegria e a confiana de ser princesa por um dia.
Fora no casamento de Corine e Matt que Angela anunciara que ela e Jordan pretendiam se casar.
	Pouco tempo atrs  ela lhes dissera , pensei estar morrendo. Sentia-me muito mal, mas a cada dia que se passava, depois de ter contado sobre a promessa que fiz  me de vocs, eu me sentia cada vez mais forte. Quando Corine telefonou agradecendo-me por manter a promessa feita a Belle depois de vinte e quatro anos, eu revivi. Senti que fui guiada pelo amor de Belle Parsons e que fiz o melhor possvel para cumprir a promessa. E que o legado do amor  o mais confivel de todos e o nico que no se pode pr de lado. Sou uma mulher muito afortunada por ter sido amada por um homem como Alf e agora por Jordan. Esta habilidade de aceitar este segundo amor  um presente que vocs trs me deram.
Matt enxugou as lgrimas que desciam pelo rosto de Corine. Ela segurou a mo dele e levou-a aos lbios.
	Sabe...  Matt sussurrou.  Fiquei muito tempo sem acreditar em nada.
	E agora?
Ele no respondeu, apenas sorriu. E era o sorriso de um homem que acreditava totalmente e com toda fora do seu corao. Acreditava na vida. Acreditava no amor. Acreditava na felicidade.

FIM
